
Direção: Anton Corbijn
A história do longa, denominada pela produção do próprio filme como um “suspense western”, segue a vida de Jack (Clooney), um homem que sempre carrega um semblante tenso e preocupado. Logo ao início do longa, que ocorre em uma cabana isolada encoberta por neve em algum lugar da tranquila Suécia, somos apresentados à razão da tensão vivida pelo personagem cujos passos estamos seguindo. Após sair para uma caminhada, Jack e sua companheira são surpreendidos por 2 homens que tentam matá-lo. Nesse momento, já da pra entender a situação em que Jack vive: um homem importante, com um passado desconhecido mas com certeza muito perigoso – o que fica muito claro pelo fato desse estar sendo caçado até mesmo na distante Suécia. Após eliminar os dois homens, Jack surpreendentemente mata sua companheira, que não entendia o que estava acontecendo. Logo, a introdução não poderia ser melhor: já entendemos que, além de ser importante, e com um passado perigoso, Jack também não pode ter sua identidade revelada (assim como seu paradeiro). E sua reação de frustração ao executar sua companheira nos mostra que ele já tenta, há um bom tempo conseguir um pouco de paz para si, mas simplesmente não consegue.
Deixarei para focar na atuação de Clooney mais para frente, mas já devo ressaltar que é incrível, por exemplo no 1º ato do filme, que já consigamos compreender toda a situação vivida por Clooney com apenas uma expressão de frustração. Com uma atuação dessas fica a grande questão: como DIABOS Clooney não foi indicado ao Oscar? Num ano onde Jesse Eisenberg foi indicado, Clooney deveria ter conseguido uma vaga sem a menor sombra de dúvida. *O trabalho de Eisenberg é notável, mas, na minha opinião, não chega aos pés da atuação de Clooney*
Corbijn, desde a primeira cena, parece saber exatamente o que quer alcançar com sua direção. Logo é notável, por exemplo, o trabalho fantástico de câmera executado pelo diretor. Sempre destacando o ambiente onde Clooney se encontra, trazendo planos abertos e extremamente nítidos (reduzindo a presença de Clooney dessa forma, e criando um ambiente suspeito por sua imensa vastidão), nunca se sabe quando alguém poderá chegar por trás do protagonista e surpreendê-lo (surpreendendo, também, o espectador). Não apenas o seu trabalho de câmeras, mas sua decupagem do roteiro, com uma sucessão de cenas que praticamente atingem a perfeição na lógica do longa (onde a tensão deve estar presente a todo momento).
Veja, por exemplo, a sucessão de cenas do início do 1º ato: o filme se inicia com um momento tranquilo em uma cabana na Suécia; após uma curta caminhada pela neve, a trilha sonora e a sutileza do cenário (recheado, dentro da cabana por um corpo feminino despido, e ao lado de fora pela vastidão da neve) são abruptamente interrompidos quando notamos a apreensão de Jack ao avistar pegadas misteriosas ao lado de fora de sua casa; a trilha do filme de torna nula, o tom tenso é instaurado e a tomada nos mostra um rochedo ameaçador ao lado dos personagens; após o som dos tiros, abafados (o que cria uma situação mais misteriosa ainda), toda a tranquilidade de alguns minutos atrás é trocada por um homem armado frustrado e 3 pessoas mortas.

Tecnicamente, o alto nível do filme também conta com um design de produção muito interessante ao trazer os ambientes (vilarejos) sempre com cores desbotadas e praticamente desabitadas. Até certo momento do filme, que ocorre já pro meio do 2º ato, podemos notar no máximo 15 figurantes. Desta forma Corbijn, além de ressaltar a solidão vivida por Jack, leva o expectador a suspeitar (da mesma forma que o personagem) de tudo e todos. Esta lógica acompanha o filme até que, ao ser convidado para jantar pela belíssima Clara (Placido), pela primeira vez no filme, Jack relaxa. E ao relaxar e começar a demonstrar sinais de que daria início uma nova tentativa de alcançar a paz, somos levados a um restaurante bastante iluminado, com cores muito vivas e, o mais importante, cheio de pessoas. Por jogadas como esta, a direção de arte do filme merece aplausos.
Esta tranquilidade é prontamente ameaçada, quando Jack descobre que mais uma vez está em perigo. O problema é que, nessa altura do campeonato, a beleza das cidades italianas (para onde Jack vai após o acontecido na Suécia) e a bondade de Clara já cativaram Jack. Naturalmente, já torcemos pelo sucesso do protagonista e, ao vermos a bondade da moça que o acompanha, começamos a torcer pelo sucesso do casal. Da para notar a dúvida de Jack, se deve ou não confiar na moça e, é exatamente neste momento que o roteiro de Rowan Joffe (mais um ponto positivo para o longa) insere uma semente de dúvida na história. A cena da pistola na bolsa da moça e a cena onde 2 homens conversam com ela, enquanto Jack observa de longe, coloca em cheque a confiança deste na moça (assim como a confiança do espectador), e, a partir desse momento, o protagonista não sabe mais o que fazer nem no que acreditar.
Mesmo após este momento, a moça volta a conquistar a confiança de Jack (na cena do pique nique), para que, após uma ligação para Pavel (Leysen), um homem de seu passado, esta confiança se ja - pela segunda vez - posta em cheque. Com esta sequência é possível, mais uma vez, notar a segurança de Corbijn na sua direção. Após Jack desligar o telefone, Corbijn nos leva por estas idas e vindas de sua vida, e para ilustrar isto, um belo plano plongé (de cima para baixo) mostra o caminho percorrido pelo carro do personagem. Um caminho estreito repleto de curvas, um caminho difícil de se trilhar. Esse caminho é a vida de Jack, onde não há um padrão, não há uma opção certa, e sempre há a dúvida do que está escondido após a próxima curva. Mais um momento sensacional do longa.
E por fim o melhor do filme. A atuação de George Clooney é perfeita. Da pra notar, apenas no seu olhar, o quanto farto seu personagem está da vida que leva. E exatamente por saber dos perigos de sua vida, ele não consegue encontrar a paz que tanto quer. Clooney quer se ver livre, ele quer poder viver. Ao ver esta possibilidade em Clara, simplesmente não consegue se desprender da sua realidade. É triste notar o caminho inevitável que seu passado o faz trilhar. A tensão transmitida por Clooney é verdadeira e sincera. Uma atuação brilhante para um filme brilhante.
Nota: 5/5
Oi Icaro! Adorei rever as suas criticas, nao sabia que voce continuava fazendo.
ResponderExcluirParabens, estao cada vez melhor!