quinta-feira, 30 de junho de 2011

Crítica: Senna


Direção: Asif Kapadia

Roteiro: Manish Pandey

Elenco: Ayrton Senna, Alain Prost, Ron Dennis






*****Como o final todos já conhecem, nessa crítica não teria como eu estragar a história com algum spoiler, mas irei citar alguns comentários feitos durante o documentário. Na minha opinião, pra quem não viu, não tem o menor problema (pelo contrário, vai dar mais vontade de ver). Mas fica aí o aviso*****


"Ele foi o melhor piloto que já existiu", dito por Niki Lauda (piloto austríaco tricampeão mundial), é a frase que consta na capa do documentário Senna. E é exatamente isso que todos que assistirem ao documentário dirão ao fim. Não que a maioria já não pense isso, pois é claro que pelo menos nós brasileiros realmente acreditamos (e com provas suficientes) que Senna foi o melhor piloto de todos os tempos. Mas o documentário de Asif Kapadia consegue, além de trazer à tona todos os feitos do ex-campeão mundial, nos mostrar o quanto original, autêntico e bom Ayrton era. Sem dúvida, um exemplo a ser seguido.

Kapadia consegue gravações de todos os períodos da vida do Senna. Não só dele competindo, mas imagens com a família, com as namoradas, na praia e em diversos momentos de sua curta vida (a família de Senna colaborou muito com o cineasta, cedendo muito material nunca visto antes para ser adicionado ao documentário). E como se não bastasse a qualidade do material que Kapadia tinha em mãos, a forma com que ele o utilizou para contar a história de Senna foi magnífica. Afinal, assistir a um documentário sobre o Senna não poderia trazer outra coisa à tona se não toda a emoção em volta da sua morte. E a excelente forma como a emoção é conduzida pelo cineasta é notável.

Logo no início de Senna vemos uma declaração de sua mãe, logo após Ayrton ser anunciado como o novo corredor de F1 do Brasil. Entre seus dizeres, dona Neide pede para que Deus abençoe seu filho, e acima de tudo, pede muita segurança e honestidade nesse novo caminho que sua vida estava trilhando. Segurança e honestidade. Não existe uma forma melhor de começar um documentário sobre o Ayrton Senna do que mostrar sua mãe pedindo segurança e honestidade para o filho. Logo nesta primeira cena já lembramos 2 coisas: o quanto honesto e autêntico Ayrton sempre foi e que, por mais que ele fosse um dos mais seguros pilotos do mundo, foi exatamente um acidente (onde faltou segurança, não dele, mas de seu carro) que tiraria a sua vida. Início perfeito.

Ayrton sempre foi uma figura emblemática. E as suas virtudes não eram voltadas apenas para a corrida, pelo contrário, durante os 106 minutos do documentário vemos o quanto inteligente e correto Ayrton era fora das pistas também. E Kapadia atinge isso sempre de forma orgânica e humana. Não é por toda a bondade do Ayrton que o vemos como uma pessoa sem falhas. Ele tinha seus momentos de descontrole emocional como, por exemplo, na corrida que lhe rendeu o segundo título mundial. A forma como ele avançou sobre Prost continha toda a raiva guardada do ano anterior, e podemos ver nesse momento que Kapadia quis de fato humanizar o Ayrton.

Por falar em Prost, Kapadia consegue carregar perfeitamente a história por trás dos dois pilotos. Desde seus primeiros dias como parceiros (em 1988, quando Senna entrou para a McLaren, onde ambos mostram uma amizade em potencial), momento em que Prost não deixa de jogar no ar uma postura insegura (que inclusive é citado no longa, uma insegurança pelo fato do Senna, jovem promissor, estar assumindo uma equipe concorrente ao título), passando pelas primeiras turbulências (quando ambos assumem que sua rivalidade) e concluindo com a morte de Senna (pois uma das pessoas que ganham espaço na tela assim que Ayrton bate no muro, é Prost). Desta forma, além de estar retratando a história de Ayrton, o documentário acaba criando uma disputa dentro dele mesmo (criando assim, digamos, uma trama).

Essa disputa não deixa de ser fundamental para nos afundarmos mais ainda na história, torcendo mais ainda por Ayrton. O momento em que Prost bate no carro de Ayrton em 1989, fazendo-o sair da pista, apenas para que ele consiga voltar, parar nos boxes e mesmo assim retomar a liderança e vencer a prova que, mais tarde, seria absurdamente anulada (pela politicagem que o próprio Ayrton tanto criticava), é fundamental para o que viria a acontecer no ano seguinte. Afinal, como um herói funcionaria numa hora dessas? Simples: ele nunca faria com o inimigo o que este havia feito com ele. O herói venceria limpo, não precisava de nada desse tipo. Mas o Senna, antes de ser herói, era humano (notável pela bela direção de Kapadi, como eu já disse acima). E a sua atitude no ano seguinte, ao tirar Prost da pista e garantir seu mundial, foi errada. Sim errada.

Mas quem se importa? O Senna merecia aquele título, e merecia o título do ano que havia passado, e merecia o título de 1992 e 1993 (vencidos por Mansel e Prost, com seus carros absurdamente superiores e avançados tecnologicamente), além do fato de Prost ser um francês muito abusado. Gritar "TOMA NARIGUDO" quando Ayrton o tirou da corrida foi bom demais. Mas aí eu lembrei que era só um documentário. Não era ao vivo... Mas que seja.

Vale comentar que, sempre que alguém relata alguma coisa, a câmera nunca deixa o Ayrton ou os momentos de sua vida (nunca somos levados a uma sala escura, por exemplo, com alguém falando algo sobre o ídolo). Essa escolha é interessante pois cria um clima interessante sobre o que a pessoa tem pra falar, adicionado ao que o Ayrton sempre teve para demonstrar. Usando essa lógica, um dos melhores momentos do documentário, na minha opinião, é quando a somos levados junto ao carro do Ayrton (aquelas cenas que mostram a visão do piloto por uma câmera presa ao lado do carro). Primeiro ninguém fala nada, enquanto as imagens mostram a tamanha dificuldade que é pilotar um carro de F1 com diversas curvas e uma velocidade frenética. Depois de alguns segundos, a voz tranquila de Ayrton é ouvida ao fundo, e ele começa a explicar qual é a sensação dele ao pilotar um carro de corrida. O quanto ele se entrega ao momento, o quanto ele relaxa enquanto pilota. Junto a isso o espectador começa a ver as coisas com mais tranquilidade (por entender e talvez sentir o mesmo que o Ayrton). E, no fim das contas, entendemos por que algo que parece ser tão complicado, era feito com maestria por ele.

Já no 3º ato, quando nos aproximamos do grande coringa do documentário, a morte de Ayrton, Kapadia toma a melhor decisão possível para o documentário. Ele remove qualquer trilha sonora e reduz ao máximo as falas, exatamente por se tratar do momento mais tenso do documentário e da vida de Ayrton. Ficamos diversos minutos notando a dor de Ayrton durante os treinos para a corrida de Ímola (devido a um acidente do Rubinho Barrichello, e outro que tirou a vida de Ratzemberger), e junto com o ídolo, o espectador começa a ficar cada vez mais tenso (afinal, sabemos exatamente o que viria a acontecer). E o acidente também é mostrado de uma forma perfeita. Mais uma vez somos levados à visão de Ayrton durante as suas últimas voltas. É como se estivéssemos juntos a ele, observando seu último momento na fórmula 1 e seu último momento vivo. Assim que Ayrton colide com a parede, aos poucos a trilha volta, e somos tomados pela emoção do momento.

No início do documentário, uma brasileira diz que o Ayrton "era a única coisa boa do Brasil". Ao final, enquanto o corpo de Ayrton era levado para ser velado, uma outra mulher diz: "o brasileiro precisa de comida, educação, saúde e alegria. A alegria se foi". E se você em algum momento se perguntar por que o Ayrton não saiu da corrida antes, e por que, mesmo com tantos "sinais", ele quis correr e não ficou fora, o próprio Ayrton responde. Quando Sid, médico da F1 e grande amigo de Senna, durante os treinos para a corrida de Ímola, pergunta: "Você gosta de pescar, por que você não desiste, se aposenta e vamos pescar juntos?", Senna responde:

"Sid, eu não posso desistir"


Nota: 5/5

3 comentários:

  1. Pô cara ! Essa sem dúvida é a sua melhor crítica. Cheguei a me emocionar com as lembranças daqueles momentos fantásticos, daqueles domingos inesquecíveis. Com certeza vou assistir a esse documentário por conta da sua crítica. Parabéns !

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  2. é garantido que o documentário vai desidratar você então... :D

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  3. o Senna era outro nível de pessoa...

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