segunda-feira, 20 de junho de 2011

Crítica: A Onda (2008)

(Alemanha)

Direção: Dennis Gansel

Roteiro: Dennis Gansel, Peter Thorwarth


Elenco: Jürgen Vogel (Rainer), Frederick Lau (Tim), Jennifer Ulrich (Karo)




Ocorrido originalmente em Palo Alto, California, "A Terceira Onda" (The Third Wave) foi um experimento criado pelo professor de história Ron Jones para demonstrar aos seus alunos como o povo alemão teria sido seduzido pelo Nazismo, e cometido os diversos tipos de atrocidades com o judeus antes e durante a Segunda Guerra. Ele teria optado pelo experimento pois os alunos não conseguiam entender como seus antepassados foram capazes de executar tudo que o III Reich ordenava e como poderiam agir praticamente como marionetes. A melhor forma de alcançar isto seria criando uma situação semelhante, levando os alunos a cultivar um sentimento semelhante como vivido no passado (mesmo que em uma circunstância completamente diferente).

Baseado nestes acontecimentos e no livro "The Wave" de 1981, o filme "A Onda" (uma produção alemã, dirigida por Dennis Gansel) se esforça ao máximo para se manter fiel à história original, e consegue, na maior parte do tempo. Como estava sendo transformada em uma produção cinematográfica, é claro que algumas mudanças teriam de ser feitas. Alguns personagens foram adicionados, o final é alterado e a história ocorre na Alemanha e não nos EUA. Eu acredito que não seria apenas uma questão de iniciativa da produção do filme em levá-lo à Alemanha, mas também uma forma de exemplificar como a autocracia exerce grande influência nas pessoas mesmo após de viver anos na democracia, e por tal, o lugar mais apropriado para demonstrar isto, por razões óbvias, seria a Alemanha.

Como um longa-metragem, "A Onda" se sai excepcionalmente bem. Com o início das aulas de Rainer Wenger (personagem baseado em Ron Jones, aqui muito bem interpretado por Jürgen Vogel), e o início do projeto, aos poucos, podemos observar o interesse despertado nos alunos por esta nova "forma de governar" instalada em sala de aula. O professor inicia seu projeto arrumando a sala em fileiras paralelas com apenas 2 lugares compostos, sempre, por um aluno com notas altas e outro com notas baixa (desta forma todos poderiam alcançar a igualdade, com um aluno ajudando o outro). Com o passar do tempo, um uniforme, um símbolo, uma saudação e o nome são criados, tudo isso sob as ordens do, agora nomeado, "Sr. Wenger". Sempre usando conceitos como "Força através de disciplina", "Força através da ação", "Força através do orgulho", "Força através da união", Rainer consegue a total dedicação de seus alunos no seu projeto.

Podemos também perceber quando as coisas começam a sair do controle, com alunos iniciando atos de vandalismo pela cidade. Da pra perceber o quanto empolgados todos estão com este novo regime em que vivem. Aos poucos mais e mais pessoas aderem à causa da Onda, até que o grupo começa a se rebelar contra as pessoas que não aceitam fazer parte deste. Entradas passam a ser restritas, e até um espaço na arquibancada para assistir a uma partida de polo-aquático é reservado apenas para os membros do grupo. A direção do filme é correta, e podemos de fato perceber cada mudança vivida por cada integrante do grupo.

As únicas grandes falhas do filme acontecem em 2 cenas com o próprio professor Rainer Wenger. Um ponto muito importante, e que nunca devemos esquecer, sobre o grupo "A Onda", é que este fazia parte de um projeto. Houve um princípio de expansão, que viria a ser interrompido pelo próprio professor ao perceber a dimensão que o grupo estava alcançando. Logo, neste projeto, a nossa única âncora com a realidade era o próprio professor, em outras palavras, com o passar dos dias, Rainer era o único que ainda encarava "A Onda" como apenas um projeto da escola (posso dizer que Rainer ainda atuava dentro do projeto, enquanto os alunos começavam a viver os ideais deste). Logo, a cena em que Rainer briga com sua esposa, fazendo colocações absurdas e contando vantagem pelo número de alunos em suas aulas (vale ressaltar que sua esposa estava grávida), foge completamente da lógica do professor. Rainer deveria ser o cara bom por trás de um grupo que fugia de controle, e não só esta cena, mas uma segunda onde a aluna Karo conversa com o professor sobre a situação do grupo. Esta temia que as coisas estariam de fato fugindo do controle dele (o que era evidente dentro da trama), e, mais uma vez, Rainer, tomando um tom ameaçador e desrespeitoso, despacha a aluna e acaba soando exatamente como um integrante do grupo. Como se estivesse sido influenciado pelas atitudes fascistas encarnadas no grupo.

Tropeços como este impedem que percebamos o esforço do professor ao tentar cancelar o projeto. Chega a ser estranho, no final do longa, vermos a sua cara de espanto com atitudes agressivas provenientes dos alunos, afinal, algumas cenas atrás ele havia feito exatamente o mesmo com sua esposa e sua aluna Karo.

De qualquer forma, não são 2 cenas que estragariam um bom filme. A história é envolvente e não só é baseada em fatos reais, como também soa como uma história real.


Nota: 4/5


Apenas para esclarecer, a partir deste ponto, se você não viu o filme fique avisado, pois irei contar o final da história real. Não é o final do filme, mas há a chance deste ser deduzido.

*****

Na história original, ao final da semana do projeto, o professor Ron (ao perceber que as coisas estavam fugindo do seu controle) envia uma mensagem a seus alunos informando que teriam a oportunidade de aparecer em rede nacional para divulgar os ideais do grupo "A Onda". Ao chegar no auditório, os alunos notam que apenas o professor os aguarda. Com a chegada de todos, Ron inicia um discurso mostrando para seus alunos que todos haviam participado de um experimento fascista, e que isto estava, de fato, subindo a cabeça de todos. Apresenta um vídeo sobre o nazismo na Alemanha e, ali, com o consenso de todos, a "Terceira Onda" chega a um fim.

É claro que, ao levar isto para as telas do cinema, não há nada mais apropriado que a inserção de um final fictício mais pesado e cruel (afinal, não há a menor dúvida de que o ocorrido no filme poderia ter ocorrido também na história real dos EUA). O final fictício é, sem dúvida, palpável e bastante satisfatório para a proposta do filme (e do projeto).

Um comentário:

  1. Baixar o Documentário - A Terceira Onda - Fascismo na Escola - http://mcaf.ee/zy59t

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