quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Crítica: Melancolia

Direção: Lars von Trier

Roteiro:
Lars von Trier

Elenco:
Kirsten Dunst (Justine), Charlotte Gainsbourg (Claire), Kiefer Sutherland (John), Stellan Skarsgard (Jack).

Tomatometer:
80%


Parte 1: A crítica em si (não há spoilers)

Sinceramente, ainda não me sinto a vontade de escrever sobre um filme tão rico em subjetividades e sutilezas quanto este Melancolia de Lars von Trier (Dogville, Anticristo). Não me sinto a vontade pelo simples fato de não ter conseguido, ainda, captar ou entender todas estas sutilezas para enriquecer a minha compreensão e crítica do longa. Mas ao mesmo tempo, me sinto na obrigação de relatar a experiência que foi passar mais de 2 horas na sessão de um dos filmes mais belos, mais tristes e mais intensos que já assisti.

O super pessimista Lars von Trier consegue a partir de um roteiro muito bem escrito, um filme muito bem montado, uma fotografia maravilhosa, uma trilha sonora tão intensa quanto à idéia em si do longa e uma direção corretíssima, criar um filme que vai ser carregado e repensado por dias por quem assistí-lo. É notável o quanto angustiado fiquei após ver o filme, e é exatamente nesse ponto que notei o quanto Lars acertou no que fez.

Melancolia conta a história de Justine e Claire, duas irmãs de passado sofrido e de relacionamentos conturbados, tanto entre si quanto com todo o resto da família, enquanto a Terra sofre a ameaça de ser atingida por um enorme planeta azul.

Logo na primeira foto do filme, Lars já demonstra qual a mensagem do longa. O rosto angustiado e sofrido de Justine é a primeira de diversas imagens em câmera lenta, que não deixam de passar uma enorme tensão até mesmo quando mostram um lindo cavalo negro deitando na relva. Com uma fotografia desbotada e uma trilha sonora tocante, os 10 minutos (talvez menos, talvez mais) da introdução são exaustivos ao extremo, e ao final, o espectador já se envolveu com o filme o suficiente para se encontrar angustiado. Ou seja, pronto para assistir ao filme (uma tirada genial de Lars). Aí a história começa.

Como já escrevi acima, de cara já da pra sacar que Lars sabe o que quer alcançar. Mas o mais importante é que ele sabe como fazê-lo. A sua direção é corretíssima quando, por exemplo, ele segura sua câmera na mão do início da história (após a introdução) até o fim. Dessa forma o filme não transcorre de forma chata ou monótona. Afinal, ele sabe que o tema abordado é um tema sofrido e cansativo, e retratá-lo com tomadas fixas seria a morte do longa (ninguém suportaria aguentar o sofrimento do filme somado ao tédio da direção). Não só as imagens são tremidas, mas sempre nos levam aos rostos de cada personagem, com cortes rápidos ligando (por exemplo) pontos extremos, como se fosse de fato alguém olhando de uma pessoa para a outra. Além de situar o espectador dentro do filme, esta forma de filmar faz com que o longa fique mais dinâmico.

O que vai mais além do que a boa direção de Lars é o seu excelente roteiro. A progressão da história é feita com um cuidado enorme, pois mesmo após passarmos uma tensa introdução, apenas aos poucos conseguimos entender a razão de toda a suposta melancolia do longa. Somos apresentados à Justine (Kirsten Dunst, na melhor atuação de sua carreira, vencedora em Cannes e digna de uma indicação ao Oscar), que em um primeiro momento parece ser uma pessoa feliz. Ao caminho de seu casamento, ela se diverte com o seu noivo enquanto sua limosine tenta manobrar pelas apertadas ruelas até a mansão onde seria a festa. Ela parece satisfeita com sua vida, e feliz com seu noivo. Mas aos poucos nos são entregues, por atores de primeiríssima qualidade, situações constrangedoras pelas quais Justine tem de passar, e aos poucos entendemos que o real sentimento de Justine se compara ao que sentimos durante a introdução.

O mais interessante é que, como fomos introduzidos ao filme de uma forma tensa e angustiante, mesmo com a felicidade da protagonista, sempre ficamos com uma pulga atrás da orelha em relação à satisfação da mesma com a vida que leva. E um outro exemplo dessa suspeita ocorre durante a festa, quando Jack (Stellan Skarsgård), suposto chefe de Justine, faz um discurso “animado” para a noiva informando sobre a promoção que esta havia acabado de ganhar. Vejam bem, a situação é agradável para a noiva (e Lars faz questão de mostrá-la sorrindo com a notícia), mas a dúvida persiste para o espectador, apenas para, no decorrer do longa, essa suspeita fosse concretizada. É prazeroso ver um filme com um roteiro tão bem trabalhado. Um roteiro que vai moldando a percepção do espectador, e ao final entrega a este a confirmação de suas suspeitas.

Ao passar pela direção e pelo roteiro, não posso de deixar de mencionar a bela fotografia de Manuel Alberto Claro e a trilha sonora muito bem trabalhada do longa (que conta com a tocante e belíssima Tristan and Isolde, Prelude de Richard Wagner). A união de telas desbotadas com a tensão da orquestra criam o clima perfeito (já comentado na crítica) na introdução, e carregam o espectador no decorrer do filme com o mesmo cuidado que o roteiro. Quanto mais próximo o planeta ameaçador se encontra da Terra, mais densa a fotografia fica (mais azul, por ser a cor do planeta), assim como faz a trilha (devo ressaltar que a música de Wagner é perfeita para o longa, nota 10 pela escolha de Lars).

Minha única crítica negativa fica para o fim dado a John (personagem de Kiefer Sutherland, também conhecido como Jack Bauer). E por incrível que pareça reside basicamente na forma como roteiro de Lars (tão elogiado) encontrou para isto. Sem revelar nada da trama, em certo momento, a ação tomada por John simplesmente não condiz com o seu personagem. A solução encontrada por Lars pareceu muito forçada e desnecessária. O momento poderia ter sido repensado.

Termino minha crítica fazendo um comentário pessoal sobre a influência que o filme teve em mim: para quem é ateu como eu (e acredito fortemente que também é o caso de Lars von Trier, mesmo não tendo pesquisado nada sobre isso), o filme terá um efeito extra. Irei citar o momento exato abaixo, mas foi realmente angustiante deixar a sessão de Melancolia pensando nesse momento. De qualquer forma, cada um acredita no que quiser (ou não acredita), mas o que todos provavelmente vão concordar é que Melancolia é uma tensa, densa e linda experiência. Além de muito melancólica.



Parte 2 – Sutilezas (HÁ SPOILERS)

Ao iniciar a crítica, mencionei que não estaria “preparado” para escrever essa crítica pela riqueza de detalhes do filme de Lars. Pois não poderia escrever esse texto sem apontá-los (tanto as que eu entendi, como as que eu acho ter entendido como as que eu definitivamente não consegui entender):

1) Ao fim da festa de casamento, a garrafa com os feijões (o que deveria ter sido uma das “brincadeiras” da festa) é levada à atenção de Claire (Charlotte Gainsbourg). O organizador revela à Claire o número de feijões que havia na garrafa, e apenas ela está presente (além do antigo mordomo do Batman, mas tudo bem...). Ao final do longa, quando o Melancholia já está a caminho da Terra, Justine revela à Claire o número exato de feijões que estavam na garrafa, apenas para, após isso, afirmar: “Eu sei de coisas Claire, só existe vida na Terra, em mais nenhum outro lugar” (ok não lembro palavra por palavra, mas a lógica foi essa). Nessa hora eu arregalei os olhos e pensei (*¨#%¨& que o pariu). Agora a minha explicação: um dos pensamentos que podem perturbar os ateus, é a aceitação de que a vida termina aqui. Isso pode ser bastante complicado para alguns (ou para todos, não sei). Neste caso, Lars faz este pequeno jogo com feijões apenas para, no fim do longa, reforçar a afirmação de Justine (que só existiria vida na Terra, e em nenhum outro lugar). Desta forma, a última cena se torna muito mais desesperadora. Afinal, a vida no universo havia encontrado um fim. Perturbador isso.

2) Até o momento em que o noivo deixa Justine e vai embora, Lars constantemente foca nos seios da protagonista. Chega a ser doentio a quantidade de closes que são dados nos seis de Dunst, mas quando parei para pensar cheguei a uma conclusão: o doentio foco nos seios da personagem era a mesma obsessão doentia que o seu noivo tinha por fazer sexo com Justine, e o isto se confirma quando Justine deixa-o no quarto de cuecas (após ser “apalpada” pelo mesmo) e ele vai embora, deixando sua recém casada esposa. Desta forma, indiretamente, Lars mostra para o espectador que até o bondoso noivo tinha algo de obscuro. Pelo menos eu acredito que esta seja a razão.

3) Quando Justine e Claire saem para cavalgar, o cavalo de Claire se nega a atravessar a ponte. Já ao final do filme, quando Claire tenta desesperadamente encontrar ajuda, indo ao condado, seu carrinho de golfe fica sem bateria justamente ao tentar atravessar a ponte. Na minha percepção, estes dois momentos são retrato da vontade de Lars de não retirar o espectador da área da mansão. Por que isso? Para que o espectador nunca deixasse aquela realidade. Afinal, todos os momentos angustiantes e frustrantes haviam ocorrido ali, observar a destruição da Terra de qualquer outro lugar não teria o mesmo efeito. A mansão já estava sufocante para quem vivia aquela história, e teria de ser sufocante até o final.

4) O grande ‘x’ da questão “Melancolia”: O 19º buraco de golfe. Pensei que pudesse ser uma tentativa de Lars manter o espectador pensando no filme após o fim da sessão, rebuscando as dicas e momentos que pudessem explicar algo que na realidade não teria explicação. Mas não sei, acho que deve haver uma explicação sim. Mas não consegui descobri-la, infelizmente. Talvez se eu assistisse ao filme de novo?


Nota 5/5

Abaixo o trailer, legendado.


sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Crítica: Apollo 18 - A Missão Proibida


Direção: Gonzalo López-Gallego


Roteiro: Brian Miller


Elenco: Warren Christie e Lloyd Owen












Jogue em um liquidificador Atividade Paranormal, Bruxa de Blair e os flashes da câmera fotográfica de Jogos Mortais (que provavelmente foram copiados de um terceiro filme), e você terá Apollo 18 - A Missão Proibida. O problema é que, diferente de A Bruxa de Blair, Apollo 18 não consegue se salvar nem por sua premissa. O filme é fraco, sem suspense, sem terror, e sem nada que possa gerar intriga no espectador.

Assim como os filmes mencionados acima, Apollo 18 se trata de uma ficção que tenta ser transmitida como verdadeira. Não apenas pelo que vemos no filme e pela forma como ele foi produzido, mas também pelas campanhas da produção do filme que contam inclusive com um site que promete ser o revelador dos segredos dos mistérios sobre as missões à Lua. Uma enorme besteira (não me darei ao trabalho de divulgar isso).

A premissa é a seguinte: Apollo 17, que ocorreu em 1972, foi dita ser a última missão tripulada para a Lua. O que todos não sabem é que houve uma outra missão, a Apollo 18, em 1973, e teria sido devido aos acontecimentos nessa missão (escondidos pelo governo americano do resto da população mundial), que o homem decidiria nunca mais voltar à Lua.

Como eu disse, essa lógica funcionou quando nós realmente acreditávamos que a Bruxa de Blair havia sido real (eu lembro o terror que foi acreditar que as cenas eram reais), e até em Atividade Paranormal, que, por mais que fosse óbvio se tratar de uma ficção, os ambientes claustrofóbicos e aterrorizantes de um quarto escuro foram suficientes para trazer momentos assustadores em nossos próprios quartos (vai dizer que você não olhou pra porta do seu quarto, no escuro, e torceu para que ela não se mexesse?). Mas hoje em dia, focar em uma campanha de que "o filme tem cenas reais", onde o suspense é fraco e a própria lógica de captação das imagens é falha, é um grande tiro no pé.

A direção de Gonzalo López-Gallego acerta ao apostar em ângulos "abertos" (por mais que a razão das imagens seja pequena, condizendo com as câmeras portáteis da época) fora da nave, criando um bom suspense onde sempre esperamos vir um susto, mas erra grotescamente ao acrescentar um zoom no ponto onde devemos perceber um movimento. Seria o mesmo que eu entregar para uma criança um livro do Wally, ver os olhos dela brilhar de empolgação, e assim que ela começasse a criar esperanças de achar o dito cujo, apontar e falar "OLHA O WALLY AQUI Ó!!!!!!". É um erro feio e, de certa forma, desrespeitoso. Pois além de estragar COMPLETAMENTE o suspense da cena, ainda duvida da inteligência do espectador. "É, essa galera não vai sacar de onde vai vir o susto, vou avacalhar a cena e mostrar onde será".


Já o roteiro de Brian Miller, que deveria ser o grande coringa da produção, consegue um feito horrendo: não conseguir explicar a razão do envio dos astronautas ao espaço, estragando por completo a lógica do longa. Primeiramente, como eu já disse acima, a lógica da captação das imagens é estragada por não conseguirmos entender como estas imagens chegaram às mãos do governo americano (ou qualquer outra pessoa). E em relação à razão da missão, fica simplesmente sem nexo a existência da Apollo 18. Sem revelar nada sobre o final do longa, digo que, em dado momento, quando já entendemos a situação da tripulação, nos perguntamos por que estes haviam sido levados nesta missão. E acreditem, não há explicação! (Ok, o filme apresenta uma explicação. Mas além de ser algo extremamente clichê e previsível, pense bem, não faz o menor sentido).

E para fechar com chave de ouro, ao fim da projeção, somos apresentados a alguns "dados oficiais" da missão (fichas informativas), onde o paradeiro de cada tripulante é "revelado", como que retirado de algum arquivo "secreto" do "governo". E como se o filme já não estivesse ruim o suficiente, estes dados chegam para estragar de vez. Sinceramente, foi muita presunção de Gallego achar que nesta altura do campeonato alguém acreditaria ter visto "cenas reais" no filme. Logo, inserir estas fichas se torna praticamente cômico, justamente após o que viria a ser a cena mais "tensa" do longa.

Tive de usar muitas aspas neste último parágrafo, afinal estou escrevendo sobre um "filme".


Nota: 1/5


quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Crítica: Diário de Uma Paixão


Direção: Nick Cassavetes

Roteiro: Jeremy Leven

Elenco: Rachel McAdams, Ryan Gosling e James Garner





Ontem à noite, após passar alguns meses ouvindo minha namorada falar do filme, assisti ao Diário de uma Paixão. Ao final do filme fiquei um pouco decepcionado com a falta de pegada do diretor que, baseado em um roteiro com furos claríssimos, não consegue aproveitar seu elenco em momentos que poderiam ter sido marcantes. Mas apenas hoje, enquanto trabalhava, que realmente percebi a influência que o filme teve em mim. A química entre Noah (a estátua Ryan Gosling) e Allie (a LINDA Rachel McAdams) foi forte o suficiente para que eu a guardasse no meu inconsciente, e apenas hoje, no dia seguinte, eu realmente percebesse o quanto me faz falta esse casal.

A história se passa no presente, onde somos apresentados a um senhor já de idade que vive em um asilo/hospital. Esse senhor faz companhia para uma senhora que perdera a memória devido a uma doença degenerativa, e para passar o tempo, ele lê para ela a história da vida de um casal que foi muito apaixonado desde o momento em que se conheceram, há muitos anos atrás. Somos então levados ao passado e vivemos aqueles momentos cheios de energia e amor vividos pelos jovens Noah e Allie.

A história do filme é água com açucar do início ao fim. Com uma fotografia bastante nítida, de cores muito vivas, o diretor Nick Cassaventes (do excelente, mas inconstante, Um Ato de Coragem e do irritante Uma Prova de Amor) conduz seus atores perfeitamente no início do longa, principalmente quando se trata da jovem Allie. Rachel McAdams, como se não bastasse ser linda, da um show como uma jovem que descobre o amor de forma explosiva, e sua expressão corporal ao ver Noah é sempre divertidíssima, convencendo do quanto apaixonada a sua personagem é pelo jovem rapaz. E é exatamente nisso que Cassaventes acerta, ao apostar numa abordagem mais infantil e inocente na relação do casal. É de fato contagiante ver o quanto os dois se gostam, e triste presenciar os momentos em que os dois se separam.

Não só com a atuação de McAdams, mas na própria atuação de Gosling, que aparenta ser um péssimo ator, Cassaventes conduz de forma correta. Não é a toa que, mesmo sendo o ator principal do longa (alternando, de certa forma, com James Garner, que faz o Noah mais velho), Gosling perde o foco quando Allie aparece na tela. Mas o interessante é que, mesmo que inexpressivo, Gosling não deixa de ter uma atuação agradável. Cassaventes consegue tirar um pouco de carisma da atuação de Gosling com um Noah que, mesmo sendo travado e tímido, não deixa de ser um clássico apaixonado que agrada o espectador.

Como dito acima, por mais que o longa se inicie muito bem, conseguindo envolver o espectador criando um laço com os jovens apaixonados, o roteiro de Jeremy Leven (que provou não saber escrever uma história de amor após trabalhar com Cassaventes no já comentado Uma Prova de Amor) não consegue estruturar sua história ao relacionar o presente com o passado. Primeiramente, o foco, ao trazer a história para o presente parece mudar com o decorrer do filme. Talvez com o passar do tempo, enquanto escrevia o roteiro, Leven tenha percebido que não conseguiria esconder o fato de que os dois velhinhos tinham alguma relação com a história contado pelo velho Noah (pelo simples fato de que isto fica óbvio desde o início), e decidiu “estragar” essa surpresa numa cena completamente descartável onde os filhos e netos são apresentados à mãe/avó que sofre de amnésia (esta, por sua vez, não reconhece seus familiares). A cena não adiciona absolutamente nada ao longa, e os belos dizeres de Noah (“Sua mãe é a minha casa, é o meu refúgio”) nesse momento poderiam muito bem ter sido utilizados no que viria a ser o “clímax” do filme.

Segundo, como acabei de dizer, o “clímax” do filme, mesmo com o entendimento de Leven sobre o destino de seu roteiro, parece que não foi modificado para se adaptar à sua “nova visão” da história. E faria sentido, caso o mistério sobre os velhinhos ainda estivesse valendo, mas como não está mais, o clímax acaba sendo absurdamente sem emoção exatamente quando esperávamos uma cena linda. A cena fica forçada, a atuação de Gena Rowlands (Allie velhinha) é péssima e acabamos ficando com um sentimento de pena por não ter visto o que estávamos esperando desde o início: uma explosão de emoção, como quando ambos eram mais novos.

Um outro péssimo momento da história que merece ser comentado é quando Noah e seu amigo Fin (Kevin Connolly, que também trabalhou com Cassaventes em Um Ato de Coragem) são recrutados para lutar na Segunda Guerra Mundial. Completamente descartável. A cena não adiciona em absolutamente nada no romance dos jovens (exatamente por não ser aproveitada nem pelo roteiro de Leven nem pela direção de Cassaventes). Era óbvio que uma segunda tentativa de Noah de contactar a Allie poderia ter sido inserida nesse momento, mas a cena da guerra serve apenas para ressaltar a fraqueza de Gosling como ator (afinal não há romance nesse momento para salvar sua atuação), que não demonstra qualquer emoção ao ver seu amigo de longa data morto. Uma cena que poderia muito bem ter recebido uma carga do mouse e uma clicada no “Delete” (ou uma esfregada de borracha).

Como todo romance, o final é previsível. E muitos deles, mesmo sendo óbvios, não deixam de funcionar e de emocionar. Para o Diário de Uma Paixão eu não consegui imaginar outra cena final que não um slow motion nos levando de volta ao Noah e à Allie jovens, sorrindo, se beijando e se abraçando. Seria muito bonito fechar o longa com uma imagem daquele lindo casal que, sem dúvida nenhuma, encantou a todos.

Agora... pássaros? O que estava passando na cabeça de Cassaventes quando decidiu fechar seu longa com um take de pássaros voando?

Nota: 3/5

(triste por não poder dar 6/5 pelo Noah e pela Allie)


quinta-feira, 21 de julho de 2011

Crítica: Um Homem Misterioso


Direção: Anton Corbijn

Roteiro: Rowan Joffe

Elenco: George Clooney (Jack / Edward), Violante Placido (Clara) e Johan Leysen (Pavel).




Uma das coisas que mais me fascinam em um filme de suspense, ou drama, é quando o diretor deste consegue fazer com que eu sinta exatamente como o protagonista no decorrer da história. A cada passo dado por ele, a cada cena tensa, ou a cada curva desconhecida, eu carregue a mesma dúvida, a mesma apreensão e o sinta as mesmas sensações que o personagem. Sem a menor sombra de dúvida, o diretor Anton Corbijn consegue criar em Um Homem Misterioso o clima perfeito para que o espectador esteja, sempre, antenado com as sensações de Clooney, que, diga-se de passagem, tem neste uma das melhores atuações de sua carreira.

A história do longa, denominada pela produção do próprio filme como um “suspense western”, segue a vida de Jack (Clooney), um homem que sempre carrega um semblante tenso e preocupado. Logo ao início do longa, que ocorre em uma cabana isolada encoberta por neve em algum lugar da tranquila Suécia, somos apresentados à razão da tensão vivida pelo personagem cujos passos estamos seguindo. Após sair para uma caminhada, Jack e sua companheira são surpreendidos por 2 homens que tentam matá-lo. Nesse momento, já da pra entender a situação em que Jack vive: um homem importante, com um passado desconhecido mas com certeza muito perigoso – o que fica muito claro pelo fato desse estar sendo caçado até mesmo na distante Suécia. Após eliminar os dois homens, Jack surpreendentemente mata sua companheira, que não entendia o que estava acontecendo. Logo, a introdução não poderia ser melhor: já entendemos que, além de ser importante, e com um passado perigoso, Jack também não pode ter sua identidade revelada (assim como seu paradeiro). E sua reação de frustração ao executar sua companheira nos mostra que ele já tenta, há um bom tempo conseguir um pouco de paz para si, mas simplesmente não consegue.

Deixarei para focar na atuação de Clooney mais para frente, mas já devo ressaltar que é incrível, por exemplo no 1º ato do filme, que já consigamos compreender toda a situação vivida por Clooney com apenas uma expressão de frustração. Com uma atuação dessas fica a grande questão: como DIABOS Clooney não foi indicado ao Oscar? Num ano onde Jesse Eisenberg foi indicado, Clooney deveria ter conseguido uma vaga sem a menor sombra de dúvida. *O trabalho de Eisenberg é notável, mas, na minha opinião, não chega aos pés da atuação de Clooney*

Corbijn, desde a primeira cena, parece saber exatamente o que quer alcançar com sua direção. Logo é notável, por exemplo, o trabalho fantástico de câmera executado pelo diretor. Sempre destacando o ambiente onde Clooney se encontra, trazendo planos abertos e extremamente nítidos (reduzindo a presença de Clooney dessa forma, e criando um ambiente suspeito por sua imensa vastidão), nunca se sabe quando alguém poderá chegar por trás do protagonista e surpreendê-lo (surpreendendo, também, o espectador). Não apenas o seu trabalho de câmeras, mas sua decupagem do roteiro, com uma sucessão de cenas que praticamente atingem a perfeição na lógica do longa (onde a tensão deve estar presente a todo momento).

Veja, por exemplo, a sucessão de cenas do início do 1º ato: o filme se inicia com um momento tranquilo em uma cabana na Suécia; após uma curta caminhada pela neve, a trilha sonora e a sutileza do cenário (recheado, dentro da cabana por um corpo feminino despido, e ao lado de fora pela vastidão da neve) são abruptamente interrompidos quando notamos a apreensão de Jack ao avistar pegadas misteriosas ao lado de fora de sua casa; a trilha do filme de torna nula, o tom tenso é instaurado e a tomada nos mostra um rochedo ameaçador ao lado dos personagens; após o som dos tiros, abafados (o que cria uma situação mais misteriosa ainda), toda a tranquilidade de alguns minutos atrás é trocada por um homem armado frustrado e 3 pessoas mortas.

Como se a cena de abertura do cena já não fosse de alto nível, a cena seguinte, onde os créditos iniciais ao filme são apresentados, é fantástica. Pela primeira vez a trilha se torna forte, uma música com um tom preocupante é iniciada, e, ao sermos apresentados aos responsáveis pelo filme, a câmera nos mostra a silhueta de Clooney enquanto este dirige por um túnel vazio. A câmera gira, e passamos a ter a mesma visão que Clooney: um túnel extenso, onde não se pode ver o final. Uma vida sem direção, uma vida instável. E ao chegarmos ao final deste túnel, somos levados instantaneamente a uma outra estrada que não parece ter fim. Já nos primeiros 10 minutos do longa, Corbijn já consegue apresentar a situação em que o personagem vive: Uma pessoa solitária, vivendo em uma estrada sem fim, e que, como eu já disse acima, parece estar perdendo suas esperanças de alcançar a tão desejada paz.

Tecnicamente, o alto nível do filme também conta com um design de produção muito interessante ao trazer os ambientes (vilarejos) sempre com cores desbotadas e praticamente desabitadas. Até certo momento do filme, que ocorre já pro meio do 2º ato, podemos notar no máximo 15 figurantes. Desta forma Corbijn, além de ressaltar a solidão vivida por Jack, leva o expectador a suspeitar (da mesma forma que o personagem) de tudo e todos. Esta lógica acompanha o filme até que, ao ser convidado para jantar pela belíssima Clara (Placido), pela primeira vez no filme, Jack relaxa. E ao relaxar e começar a demonstrar sinais de que daria início uma nova tentativa de alcançar a paz, somos levados a um restaurante bastante iluminado, com cores muito vivas e, o mais importante, cheio de pessoas. Por jogadas como esta, a direção de arte do filme merece aplausos.

Esta tranquilidade é prontamente ameaçada, quando Jack descobre que mais uma vez está em perigo. O problema é que, nessa altura do campeonato, a beleza das cidades italianas (para onde Jack vai após o acontecido na Suécia) e a bondade de Clara já cativaram Jack. Naturalmente, já torcemos pelo sucesso do protagonista e, ao vermos a bondade da moça que o acompanha, começamos a torcer pelo sucesso do casal. Da para notar a dúvida de Jack, se deve ou não confiar na moça e, é exatamente neste momento que o roteiro de Rowan Joffe (mais um ponto positivo para o longa) insere uma semente de dúvida na história. A cena da pistola na bolsa da moça e a cena onde 2 homens conversam com ela, enquanto Jack observa de longe, coloca em cheque a confiança deste na moça (assim como a confiança do espectador), e, a partir desse momento, o protagonista não sabe mais o que fazer nem no que acreditar.

Mesmo após este momento, a moça volta a conquistar a confiança de Jack (na cena do pique nique), para que, após uma ligação para Pavel (Leysen), um homem de seu passado, esta confiança se ja - pela segunda vez - posta em cheque. Com esta sequência é possível, mais uma vez, notar a segurança de Corbijn na sua direção. Após Jack desligar o telefone, Corbijn nos leva por estas idas e vindas de sua vida, e para ilustrar isto, um belo plano plongé (de cima para baixo) mostra o caminho percorrido pelo carro do personagem. Um caminho estreito repleto de curvas, um caminho difícil de se trilhar. Esse caminho é a vida de Jack, onde não há um padrão, não há uma opção certa, e sempre há a dúvida do que está escondido após a próxima curva. Mais um momento sensacional do longa.

E por fim o melhor do filme. A atuação de George Clooney é perfeita. Da pra notar, apenas no seu olhar, o quanto farto seu personagem está da vida que leva. E exatamente por saber dos perigos de sua vida, ele não consegue encontrar a paz que tanto quer. Clooney quer se ver livre, ele quer poder viver. Ao ver esta possibilidade em Clara, simplesmente não consegue se desprender da sua realidade. É triste notar o caminho inevitável que seu passado o faz trilhar. A tensão transmitida por Clooney é verdadeira e sincera. Uma atuação brilhante para um filme brilhante.


Nota: 5/5



(Abaixo o trailer do filme. A cena do túnel e do plano Plongé podem ser vistos nele)



*** PS com spoiler **** NÃO LEIA SE NÃO VIU O FILME ***
PS.: os socos ao volante de Clooney ao perceber a gravidade de seu ferimento é o ápice de sua atuação. A paz tão desejada estava ali, a alguns minutos. Mas ele simplesmente não podia tê-la. Não podia.
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quinta-feira, 30 de junho de 2011

Crítica: Senna


Direção: Asif Kapadia

Roteiro: Manish Pandey

Elenco: Ayrton Senna, Alain Prost, Ron Dennis






*****Como o final todos já conhecem, nessa crítica não teria como eu estragar a história com algum spoiler, mas irei citar alguns comentários feitos durante o documentário. Na minha opinião, pra quem não viu, não tem o menor problema (pelo contrário, vai dar mais vontade de ver). Mas fica aí o aviso*****


"Ele foi o melhor piloto que já existiu", dito por Niki Lauda (piloto austríaco tricampeão mundial), é a frase que consta na capa do documentário Senna. E é exatamente isso que todos que assistirem ao documentário dirão ao fim. Não que a maioria já não pense isso, pois é claro que pelo menos nós brasileiros realmente acreditamos (e com provas suficientes) que Senna foi o melhor piloto de todos os tempos. Mas o documentário de Asif Kapadia consegue, além de trazer à tona todos os feitos do ex-campeão mundial, nos mostrar o quanto original, autêntico e bom Ayrton era. Sem dúvida, um exemplo a ser seguido.

Kapadia consegue gravações de todos os períodos da vida do Senna. Não só dele competindo, mas imagens com a família, com as namoradas, na praia e em diversos momentos de sua curta vida (a família de Senna colaborou muito com o cineasta, cedendo muito material nunca visto antes para ser adicionado ao documentário). E como se não bastasse a qualidade do material que Kapadia tinha em mãos, a forma com que ele o utilizou para contar a história de Senna foi magnífica. Afinal, assistir a um documentário sobre o Senna não poderia trazer outra coisa à tona se não toda a emoção em volta da sua morte. E a excelente forma como a emoção é conduzida pelo cineasta é notável.

Logo no início de Senna vemos uma declaração de sua mãe, logo após Ayrton ser anunciado como o novo corredor de F1 do Brasil. Entre seus dizeres, dona Neide pede para que Deus abençoe seu filho, e acima de tudo, pede muita segurança e honestidade nesse novo caminho que sua vida estava trilhando. Segurança e honestidade. Não existe uma forma melhor de começar um documentário sobre o Ayrton Senna do que mostrar sua mãe pedindo segurança e honestidade para o filho. Logo nesta primeira cena já lembramos 2 coisas: o quanto honesto e autêntico Ayrton sempre foi e que, por mais que ele fosse um dos mais seguros pilotos do mundo, foi exatamente um acidente (onde faltou segurança, não dele, mas de seu carro) que tiraria a sua vida. Início perfeito.

Ayrton sempre foi uma figura emblemática. E as suas virtudes não eram voltadas apenas para a corrida, pelo contrário, durante os 106 minutos do documentário vemos o quanto inteligente e correto Ayrton era fora das pistas também. E Kapadia atinge isso sempre de forma orgânica e humana. Não é por toda a bondade do Ayrton que o vemos como uma pessoa sem falhas. Ele tinha seus momentos de descontrole emocional como, por exemplo, na corrida que lhe rendeu o segundo título mundial. A forma como ele avançou sobre Prost continha toda a raiva guardada do ano anterior, e podemos ver nesse momento que Kapadia quis de fato humanizar o Ayrton.

Por falar em Prost, Kapadia consegue carregar perfeitamente a história por trás dos dois pilotos. Desde seus primeiros dias como parceiros (em 1988, quando Senna entrou para a McLaren, onde ambos mostram uma amizade em potencial), momento em que Prost não deixa de jogar no ar uma postura insegura (que inclusive é citado no longa, uma insegurança pelo fato do Senna, jovem promissor, estar assumindo uma equipe concorrente ao título), passando pelas primeiras turbulências (quando ambos assumem que sua rivalidade) e concluindo com a morte de Senna (pois uma das pessoas que ganham espaço na tela assim que Ayrton bate no muro, é Prost). Desta forma, além de estar retratando a história de Ayrton, o documentário acaba criando uma disputa dentro dele mesmo (criando assim, digamos, uma trama).

Essa disputa não deixa de ser fundamental para nos afundarmos mais ainda na história, torcendo mais ainda por Ayrton. O momento em que Prost bate no carro de Ayrton em 1989, fazendo-o sair da pista, apenas para que ele consiga voltar, parar nos boxes e mesmo assim retomar a liderança e vencer a prova que, mais tarde, seria absurdamente anulada (pela politicagem que o próprio Ayrton tanto criticava), é fundamental para o que viria a acontecer no ano seguinte. Afinal, como um herói funcionaria numa hora dessas? Simples: ele nunca faria com o inimigo o que este havia feito com ele. O herói venceria limpo, não precisava de nada desse tipo. Mas o Senna, antes de ser herói, era humano (notável pela bela direção de Kapadi, como eu já disse acima). E a sua atitude no ano seguinte, ao tirar Prost da pista e garantir seu mundial, foi errada. Sim errada.

Mas quem se importa? O Senna merecia aquele título, e merecia o título do ano que havia passado, e merecia o título de 1992 e 1993 (vencidos por Mansel e Prost, com seus carros absurdamente superiores e avançados tecnologicamente), além do fato de Prost ser um francês muito abusado. Gritar "TOMA NARIGUDO" quando Ayrton o tirou da corrida foi bom demais. Mas aí eu lembrei que era só um documentário. Não era ao vivo... Mas que seja.

Vale comentar que, sempre que alguém relata alguma coisa, a câmera nunca deixa o Ayrton ou os momentos de sua vida (nunca somos levados a uma sala escura, por exemplo, com alguém falando algo sobre o ídolo). Essa escolha é interessante pois cria um clima interessante sobre o que a pessoa tem pra falar, adicionado ao que o Ayrton sempre teve para demonstrar. Usando essa lógica, um dos melhores momentos do documentário, na minha opinião, é quando a somos levados junto ao carro do Ayrton (aquelas cenas que mostram a visão do piloto por uma câmera presa ao lado do carro). Primeiro ninguém fala nada, enquanto as imagens mostram a tamanha dificuldade que é pilotar um carro de F1 com diversas curvas e uma velocidade frenética. Depois de alguns segundos, a voz tranquila de Ayrton é ouvida ao fundo, e ele começa a explicar qual é a sensação dele ao pilotar um carro de corrida. O quanto ele se entrega ao momento, o quanto ele relaxa enquanto pilota. Junto a isso o espectador começa a ver as coisas com mais tranquilidade (por entender e talvez sentir o mesmo que o Ayrton). E, no fim das contas, entendemos por que algo que parece ser tão complicado, era feito com maestria por ele.

Já no 3º ato, quando nos aproximamos do grande coringa do documentário, a morte de Ayrton, Kapadia toma a melhor decisão possível para o documentário. Ele remove qualquer trilha sonora e reduz ao máximo as falas, exatamente por se tratar do momento mais tenso do documentário e da vida de Ayrton. Ficamos diversos minutos notando a dor de Ayrton durante os treinos para a corrida de Ímola (devido a um acidente do Rubinho Barrichello, e outro que tirou a vida de Ratzemberger), e junto com o ídolo, o espectador começa a ficar cada vez mais tenso (afinal, sabemos exatamente o que viria a acontecer). E o acidente também é mostrado de uma forma perfeita. Mais uma vez somos levados à visão de Ayrton durante as suas últimas voltas. É como se estivéssemos juntos a ele, observando seu último momento na fórmula 1 e seu último momento vivo. Assim que Ayrton colide com a parede, aos poucos a trilha volta, e somos tomados pela emoção do momento.

No início do documentário, uma brasileira diz que o Ayrton "era a única coisa boa do Brasil". Ao final, enquanto o corpo de Ayrton era levado para ser velado, uma outra mulher diz: "o brasileiro precisa de comida, educação, saúde e alegria. A alegria se foi". E se você em algum momento se perguntar por que o Ayrton não saiu da corrida antes, e por que, mesmo com tantos "sinais", ele quis correr e não ficou fora, o próprio Ayrton responde. Quando Sid, médico da F1 e grande amigo de Senna, durante os treinos para a corrida de Ímola, pergunta: "Você gosta de pescar, por que você não desiste, se aposenta e vamos pescar juntos?", Senna responde:

"Sid, eu não posso desistir"


Nota: 5/5

terça-feira, 28 de junho de 2011

Variedades e Compilações - 2

Fala Galera!

Me enviaram um curta muito maneiro pra postar aqui no blog. O nome é The Black Hole (O Buraco Negro), escrito e dirigido por Olly Williams e Phil Sanson. O curta é basicamente uma crítica à ganância do ser humano.

Gostei MUITO do som (principalmente na hora do chocolate) e da montagem dinâmica desse projeto.

Enjoy!


sábado, 25 de junho de 2011

Crítica: Lunar

Direção: Duncan Jones

Roteiro:
Duncan Jones (história), Nathan Parker (roteiro)

Elenco:
Sam Rockwell (Sam), Kevin Spacey (voz, GERDY), Dominique McElligott (Tess)




"Acorde-me quando chegar a hora de desistir", escrito na camisa de Sam Bell (vivido, literalmente, por Sam Rockwell) logo na primeira cena deste no filme, já deixa bem claro para o espectador a situação em que o personagem vive. Contratado pela empresa Lunar, responsável pela extração de um gás (Hélio) que supre 70% da energia utilizada pelo planeta, Sam cumpre um contrato de 3 anos trabalhando sozinho em uma estação na Lua. "Sozinho", "Lua" e "3 anos" seriam palavras/expressões suficientes para que imaginássemos a situação enlouquecedora que qualquer pessoa viveria. "Enlouquecedora" seria a palavra perfeita para descrever a situação do personagem Sam no decorrer do filme. E "Excelente" seria a minha avaliação do filme, caso não contasse com 2 graves problemas, que serão retratados abaixo.

Com o passar do filme, aprendemos que Sam tem uma esposa e uma filhinha esperando-o na Terra, e assim que seu contrato chegar ao fim, ele será levado de volta para casa. Sua única fonte de relacionamento durante sua estadia é o computador GERTY (voz de Kevin Spacey, um erro, na minha opinião, que será comentado adiante), que o auxilia em suas funções diárias, além de servir como companhia para o rapaz.

A idéia geral do filme é muito interessante, e me atrevo a dizer que o ator que escolheram para tamanha responsabilidade é perfeito. Depois de atuações sempre coadjuvantes e sempre marcantes em diversos filmes (como Frost/Nixon, Homem de Ferro 2, O Guia do Mochileiro das Galáxias e, a melhor de todas, À Espera de Um Milagre), Sam Rockwell consegue uma atuação extremamente sólida e convincente (e pela primeira vez tem a chance de ser protagonista). Não bastasse a dificuldade de criar um personagem que convivesse com a solidão há quase 3 anos, ele teve ainda de criar outro, com as mesmas lembranças, apenas um pouco mais "renovado" (pra quem não viu o filme, este é um convite para assisti-lo).

Mas mesmo assim, há um grande problema por traz da sua atuação: o roteiro do filme. Duncan Jones, diretor e criador da história por traz do longa (que por sua vez é escrito pelo também novato Nathan Parker), tem sua estréia no cinema com este Lunar. E por mais que a crítica mundial tenha rasgado elogios para Jones, ao meu ver, além de sua direção esconder todo o real potencial de Rockwell, ela não consegue consertar um roteiro com falhas notáveis.

Tendo ciência do excelente ator que Rockwell é, Jones poderia e deveria ter explorado muito mais os momentos emotivos do ator no filme. Cenas como, por exemplo, a que Sam consegue contato com a sua filha são cortadas bruscamente (o que remeterá, mais à frente, ao meu comentário sobre a fraca montagem do filme), e ao invés de Jones focar na emoção de Sam (sentimento que deveria estar fortemente ligado a sua loucura), este prefere fazer o corte para mostrar um plano aberto do local onde Sam se encontra e do planeta Terra ao fundo. Por mais que a fotografia desta cena (e do resto do filme) seja belíssima, com uma utilização de iluminação perfeita em todos os ambientes, este momento seria perfeito para valorizar tanto o personagem quanto o ator. No final das contas, Rockwell acaba com uma atuação perfeita no quesito "enlouquecido" e muito regular no quesito "emoção". E isto é imperdoável se levarmos em consideração tudo que Sam descobre no decorrer do filme.

Não podemos, de forma alguma, culpar Rockwell por isto. Como dito acima, os 2 graves problemas do longa são o roteiro e a montagem. A baixa qualidade do primeiro é notada pela falta de coesão da história em si. Há momentos muito próximos com atitudes completamente distintas, perdendo completamente o sentido das cenas. Veja, por exemplo, o momento em que Tess (Dominique McElligott), pela primeira vez no filme, envia uma mensagem para seu marido. Ela está feliz com a volta do mesmo, que ocorreria em 2 semanas, para que, alguns dias depois ela enviasse outra mensagem dizendo que está na dúvida de como está o relacionamento de ambos. Outro momento que estas falhas são notáveis é quando Sam, temendo estar ficando louco, desenha na parede do banheiro smiles para contar os dias que faltam para voltar para casa sendo que, na cena seguinte, ele se entregaria à loucura e começaria a conversar com uma pessoa que não deveria existir. Não faz sentido.

Quanto à montagem (realizada por Nicolas Gaster), entendo que há uma grave dificuldade em montar um filme onde um dublê de corpo está sempre presente, e as trocas de cenas devem ser feitas perfeitamente para que este dublê de corpo sempre aparente ser o próprio ator. Mas de qualquer forma, os cortes nunca conseguem ser orgânicos. Um exemplo claro disso é quando Sam começa a lutar consigo mesmo, onde os cortes são muito bruscos e rápidos. O espectador não consegue entender o que está acontecendo (tudo bem, nós sabemos que ambos estão brigando, mas fica uma briga sem sentido pois você nunca sabe onde está cada um), tudo fica extremamente embolado.

É evidente que estas falhas não podem ser atribuídas apenas à montagem ou ao roteiro. O diretor Duncan Jones está envolvido do início ao fim do projeto, e além dele ser o responsável pela decupagem (ação de levar à tela o que consta no roteiro), ele também decide a versão final da montagem do filme. Por mais que tenha sido apenas seu primeiro projeto, acredito que faltou atenção aos pequenos detalhes que, acumulados, acabaram gerando cenas desconfortáveis no decorrer do filme.

Deixando de lado seus pontos negativos, o filme acerta em cheio em seu design de produção. Com um trabalho exemplar tanto na cenografia, quando na direção de arte e maquiagem (todos auxiliados pela já elogiada fotografia), a estação espacial é criada no intuito de acentuar a situação incômoda (e propícia para a loucura) que Sam vive. Tudo é muito branco, e o único momento em que Sam aparece com uma roupa colorida é exatamente na primeira cena, com os dizeres "Acorde-me quando chegar a hora de desistir" (funciona perfeitamente, além de ser um trocadilho de cores interessante). Não poderia deixar de comentar sobre a maquiagem, que faz um trabalho muito realista ao retratar os ferimentos de Sam.

Saindo um pouco da análise técnica no filme e entrando numa análise lógica (que eu adoro e foi exatamente o que me motivou a criar o TCNF no Youtube), gostaria de fazer uma crítica à história de Lunar. Eu simplesmente não consegui entender qual é a necessidade da existência de uma pessoa trabalhando naquela estação. GERTY, o computador, consegue realizar todas as tarefas que seriam endereçadas ao Sam. E o que me fez chegar a esta conclusão foi o fato de que, mesmo este sendo um robô (ou computador, como queiram), ele tem inteligência o suficiente para tomar atitudes emotivas (como quando ele deixa que Sam saia da estação, mesmo após receber ordens para que não, ou quando ele diz estar preocupado com Sam), o que excluiria a necessidade de um ser humano "por tomar iniciativas que um robô nunca conseguiria". Outro momento que prova a maior eficácia do robô do que do humano é quando este segundo corta alguns fios, e o robô que vai concertar. Volto a perguntar, qual a necessidade de um ser humano numa estação destas?

E para finalizar com as minhas críticas negativas, uma idéia correta e uma escolha errada fizeram com que a voz de GERDY (fundamental para a lógica do longa) acabasse se tornando algo negativo para o filme. A idéia de trazer uma voz com um tom tranquilo é perfeita, exatamente pelo fato de uma voz muito tranquila ser completamente irritante, mas, escolher Kevin Spacey para fazê-la estraga com a lógica. A voz marcante do ator sempre irá nos remeter à sua figura, e acabamos não compreendendo como é viver numa estação daquelas com um robô falando no seu ouvido durante 3 anos. Exatamente por conhecermos o dono daquela voz, nos distanciamos do personagem do filme e somos remetidos ao próprio Kevin Spacey.

No geral: uma atuação competente, extremamente mal aproveitada em um longa com altos e baixos técnicos que, talvez por falta de experiência, não tenha atingido o nível desejado por todos por trás do projeto.


Nota: 2/5

(Abaixo o trailer de Lunar, note a camisa colorida logo no início)