
DIREÇÃO: Alexander Payne
ROTEIRO: Alexander Payne e Nat Faxon
ELENCO: George Clooney e Shailene Woodley
Antes de assistir a Os Descendentes, não pude deixar de perceber uma citação inserida no pôster do filme. Apesar de eu não lembrar exatamente qual foi o crítico, esta chamou bastante atenção, pois dizia que essa seria "a melhor atuação de George Clooney em toda sua carreira". Logo suspeitei da frase por dois motivos: o primeiro, pois da última vez que vi essa frase dita sobre o mesmo George Clooney, era referente ao seu trabalho em Michael Clayton, o qual eu achei bastante medíocre; o segundo, pois realmente não achava possível que sua atuação em Um Homem Misterioso seria superada. E até a metade de Os Descendentes a minha suspeita foi se concretizando, apenas para que, da metade em diante, me fosse entregue uma evolução de personagem pela qual eu não esperava. Alexander Payne conseguiu, George Clooney conseguiu. Essa foi a melhor atuação de sua carreira.
Dirigido por este já mencionado acima, e situado no Havaí, Os Descendentes conta a história de Matt King (Clooney), pai de família que, em momento delicado de sua vida, enfrenta o coma de sua mulher devido a um acidente de barco; a responsabilidade pela venda de um enorme terreno que por gerações permanece no nome de sua família; e a missão de cuidar de suas duas filhas, um tanto problemáticas, sem a ajuda da esposa.

A minha opinião sobre o filme acaba sendo exatamente o inverso do que ocorreu em Missão Impossível 4: O Protocolo Fantasma, onde, até a metade do filme fui apresentado a uma trama incrivelmente bem trabalhada e instigante, apenas para que, a partir da metade do 2º ato, esta trama fosse completamente destruída por resoluções clichês e estúpidas, que definitivamente não foram resolvidas com o mesmo cuidado com o qual foram criadas. Em Os Descendentes, somos apresentados a dois momentos interessantíssimos logo no 1º ato (serão descritos abaixo), e só. Todo o resto da história é chato, a apresentação de cada personagem é insuportável e suas ações não condizem com a situação em que vivem. Se iniciando pela pequena Scottie que, mesmo tendo apenas 10 anos e colecionando fotos da sua mãe em coma, não parece sentir a menor falta dela. Ok, a “desculpa” do filme é que a desculpa dada à menina é que sua mãe logo iria acordar. De qualquer forma, é muito estranho ver uma menina tão pequena encarando a situação com tanta tranquilidade e naturalidade. Me pareceu muito forçado.
A estrutura do filme fica bastante clara bem do início: estaremos assistindo à luta de um pai de família que, enquanto enfrenta adversidades de vários tipos, deve aprender a lidar com suas filhas, pois levando em conta o provável destino de sua esposa (Liz), deverá ser seu principal dever para o resto de sua vida. O grande problema é a forma como esta estrutura é desenvolvida. Na primeira cena do filme, Payne tem uma jogada de mestre ao nos apresentar à esposa de Matt em seus últimos momentos de vida. Ela não fala absolutamente nada, simplesmente se mostra incrivelmente feliz e satisfeita enquanto aproveita um passeio de lancha em alta velocidade. Entendam, essa ideia é incrível, pois acaba que, para todo o resto do filme esta é a única imagem da Liz que guardamos em nossa memória (que acaba sendo a principal "causadora" da maioria dos problemas enfrentados por Matt), e essa imagem positiva acaba sendo o mesmo tipo de lembrança que Matt deve carregar ao encarar estes problemas (ao sentir falta de uma pessoa querida tendemos a lembrar dos momentos felizes e plenos desta pessoa, ao iniciar o filme dessa forma, Payne quer que tenhamos este mesmo sentimento). Mas logo depois disso, o filme já parece não saber como contar sua própria história. Uma narração em off se inicia, onde o próprio Clooney começa a explicar TUDO que está acontecendo. Além de ser desnecessário para desenvolver a história (pois os espectadores conseguiriam entender o que está acontecendo com o passar do tempo e de forma natural), acaba sendo repetitivo e abandonado em meados do 2º ato, tornando-se nitidamente uma falha "corrigida a tempo". A conclusão que poderíamos tirar seria de um imensa falha de roteiro, que, para contar sua história, acaba uma usando uma ferramenta desnecessária, conseguindo abandoná-la horas após o início do longa, coincidência ou não, quando o filme começa a fazer mais sentido.
Não só sua filha Scottie parece não estar vivendo a situação em que realmente se encontra, sua filha mais velha entra na história como alcoólica-histérica e, ao ser a única companhia de Matt para encarar a situação, demora muito para que a presença dele ajude de fato o pai. Logo, desta forma, ao escrever o roteiro, Payne e Faxon parecem tentar a todo custo colocar uma pedra no caminho de Matt. E essas pedras muitas vezes não fazem o menor sentido, como a inserção do amigo de Alex, Sid que não passa de um COMPLETO débil mental, e suas atitudes só fazem irritar (coincidência ou não, o personagem leva o mesmo nome do bicho-preguiça de Era do Gelo). Como se seu personagem já não fosse inútil o suficiente, suas falas são completamente descartáveis, e a incansável tentativa do roteiro e fazer piadas estúpidas parecem se esforçar ao MÁXIMO em tornar Os Descendentes em um filme extremamente cansativo e desnecessário. Não apenas cansativo, mas sem sentido pois, em certo momento, o piloto da embarcação acidentada (que levou Liz a entrar no coma) aparece em cena, apenas para ser humilhado tanto por Matt como por sua filha Scottie. E notem, fica bastante claro que a culpa não foi de Troy (o piloto), e que foi de fato um acidente, uma fatalidade. Mesmo assim Matt trata Troy como culpado, e junto a sua filha demonstra uma enorme infantilidade (que para a segunda, seria justificável).
Com a única excessão da cena de abertura e, com uma pequena reviravolta que ocorre na primeira reunião da filha King (para decidir sobre a venda do enorme terreno pertencente à família), onde, no meio da conversa, Clooney demonstra o primeiro indício da excelente atuação ao fechar sua expressão e pensar na esposa (uma bela cena, muito bem dirigida por Payne que fecha a imagem no rosto de Clooney, fazendo com que nós espectadores também voltemos à realidade complicada que o protagonista vive), Os Descendentes pára por aí. E até meados do segundo ato, o filme é chato, um pouco absurdo e muito desnecessário (a cena em que Sid ri da sogra de Matt, que tem alzheimer, é ridícula e de uma enorme falta de respeito, e ter de ouvir a risada dos idiotas que assistiram o filme junto comigo foi de fato revoltante). Até que, em certo momento, Matt visita a casa do corretor Speers (cuja função no filme não irei revelar).

Nesse momento, Payne parece aprender como dirigir de forma adequada a situação em que Matt vive, e não apenas isso, Clooney inicia uma evolução comovente de seu personagem. As diversas sutilezas de sua atuação são belíssimas, além de ser o grande diferencial do longa. Seja na corridinha de pai aposentado, ou no beijo dado a uma certa pessoa após a visita à casa do corretor, ou na declaração dada à sua mulher no 3º ato, Clooney prova porque é um ator incrível. Mas o que faz o diferencial desta atuação, e não pode haver discussão quanto a isso, ocorre quando, pela primeira vez no filme, ele é elogiado pela filha. O sorriso de canto de boca, somado ao olhar sem jeito, mais o movimento de seu corpo (um movimento de constrangimento mistura com surpresa) garante sua presença no Oscar. Não só ao Oscar, mas ao hall da fama dos maiores atores de todos os tempos. Não estou exagerando, definitivamente. Isso que é atuação, você observar um ator incorporar um papel com enorme naturalidade, e, por certo momento, acabar esquecendo que aquela pessoa não é de fato real. Clooney consegue isso e, até o momento, merece o Oscar, na minha opinião (Jean Dujardin é o mais cotado a levar a estatueta, mas eu já vi O Artista, e por mais que sua atuação tenha sido brilhante, em nenhum momento deixou de ser uma atuação).
Provando que não apenas Clooney evoluiu com o decorrer das filmagens, Payne parece ter entendido como contar uma história decentemente ao concluir o longa sem usar nenhum tipo de narração, deixando o espectador entender a mensagem das últimas cenas por si só. Isso sim é a forma correta e respeitosa de preparar um filme, respeitando a inteligência de quem paga o ingresso para assisti-lo.
Mas como a quantidade de preguiçosos que vão ao cinema continua subindo, acaba fazendo sentido os filmes terem seus momentos mastigados…
Nota: 3/5
Abaixo, o trailer do filme.
Olá, Icaro. Td bem? O que achou de Os Vingadores??? Estou ansiosa para ver sua crítica!
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