quinta-feira, 30 de junho de 2011

Crítica: Senna


Direção: Asif Kapadia

Roteiro: Manish Pandey

Elenco: Ayrton Senna, Alain Prost, Ron Dennis






*****Como o final todos já conhecem, nessa crítica não teria como eu estragar a história com algum spoiler, mas irei citar alguns comentários feitos durante o documentário. Na minha opinião, pra quem não viu, não tem o menor problema (pelo contrário, vai dar mais vontade de ver). Mas fica aí o aviso*****


"Ele foi o melhor piloto que já existiu", dito por Niki Lauda (piloto austríaco tricampeão mundial), é a frase que consta na capa do documentário Senna. E é exatamente isso que todos que assistirem ao documentário dirão ao fim. Não que a maioria já não pense isso, pois é claro que pelo menos nós brasileiros realmente acreditamos (e com provas suficientes) que Senna foi o melhor piloto de todos os tempos. Mas o documentário de Asif Kapadia consegue, além de trazer à tona todos os feitos do ex-campeão mundial, nos mostrar o quanto original, autêntico e bom Ayrton era. Sem dúvida, um exemplo a ser seguido.

Kapadia consegue gravações de todos os períodos da vida do Senna. Não só dele competindo, mas imagens com a família, com as namoradas, na praia e em diversos momentos de sua curta vida (a família de Senna colaborou muito com o cineasta, cedendo muito material nunca visto antes para ser adicionado ao documentário). E como se não bastasse a qualidade do material que Kapadia tinha em mãos, a forma com que ele o utilizou para contar a história de Senna foi magnífica. Afinal, assistir a um documentário sobre o Senna não poderia trazer outra coisa à tona se não toda a emoção em volta da sua morte. E a excelente forma como a emoção é conduzida pelo cineasta é notável.

Logo no início de Senna vemos uma declaração de sua mãe, logo após Ayrton ser anunciado como o novo corredor de F1 do Brasil. Entre seus dizeres, dona Neide pede para que Deus abençoe seu filho, e acima de tudo, pede muita segurança e honestidade nesse novo caminho que sua vida estava trilhando. Segurança e honestidade. Não existe uma forma melhor de começar um documentário sobre o Ayrton Senna do que mostrar sua mãe pedindo segurança e honestidade para o filho. Logo nesta primeira cena já lembramos 2 coisas: o quanto honesto e autêntico Ayrton sempre foi e que, por mais que ele fosse um dos mais seguros pilotos do mundo, foi exatamente um acidente (onde faltou segurança, não dele, mas de seu carro) que tiraria a sua vida. Início perfeito.

Ayrton sempre foi uma figura emblemática. E as suas virtudes não eram voltadas apenas para a corrida, pelo contrário, durante os 106 minutos do documentário vemos o quanto inteligente e correto Ayrton era fora das pistas também. E Kapadia atinge isso sempre de forma orgânica e humana. Não é por toda a bondade do Ayrton que o vemos como uma pessoa sem falhas. Ele tinha seus momentos de descontrole emocional como, por exemplo, na corrida que lhe rendeu o segundo título mundial. A forma como ele avançou sobre Prost continha toda a raiva guardada do ano anterior, e podemos ver nesse momento que Kapadia quis de fato humanizar o Ayrton.

Por falar em Prost, Kapadia consegue carregar perfeitamente a história por trás dos dois pilotos. Desde seus primeiros dias como parceiros (em 1988, quando Senna entrou para a McLaren, onde ambos mostram uma amizade em potencial), momento em que Prost não deixa de jogar no ar uma postura insegura (que inclusive é citado no longa, uma insegurança pelo fato do Senna, jovem promissor, estar assumindo uma equipe concorrente ao título), passando pelas primeiras turbulências (quando ambos assumem que sua rivalidade) e concluindo com a morte de Senna (pois uma das pessoas que ganham espaço na tela assim que Ayrton bate no muro, é Prost). Desta forma, além de estar retratando a história de Ayrton, o documentário acaba criando uma disputa dentro dele mesmo (criando assim, digamos, uma trama).

Essa disputa não deixa de ser fundamental para nos afundarmos mais ainda na história, torcendo mais ainda por Ayrton. O momento em que Prost bate no carro de Ayrton em 1989, fazendo-o sair da pista, apenas para que ele consiga voltar, parar nos boxes e mesmo assim retomar a liderança e vencer a prova que, mais tarde, seria absurdamente anulada (pela politicagem que o próprio Ayrton tanto criticava), é fundamental para o que viria a acontecer no ano seguinte. Afinal, como um herói funcionaria numa hora dessas? Simples: ele nunca faria com o inimigo o que este havia feito com ele. O herói venceria limpo, não precisava de nada desse tipo. Mas o Senna, antes de ser herói, era humano (notável pela bela direção de Kapadi, como eu já disse acima). E a sua atitude no ano seguinte, ao tirar Prost da pista e garantir seu mundial, foi errada. Sim errada.

Mas quem se importa? O Senna merecia aquele título, e merecia o título do ano que havia passado, e merecia o título de 1992 e 1993 (vencidos por Mansel e Prost, com seus carros absurdamente superiores e avançados tecnologicamente), além do fato de Prost ser um francês muito abusado. Gritar "TOMA NARIGUDO" quando Ayrton o tirou da corrida foi bom demais. Mas aí eu lembrei que era só um documentário. Não era ao vivo... Mas que seja.

Vale comentar que, sempre que alguém relata alguma coisa, a câmera nunca deixa o Ayrton ou os momentos de sua vida (nunca somos levados a uma sala escura, por exemplo, com alguém falando algo sobre o ídolo). Essa escolha é interessante pois cria um clima interessante sobre o que a pessoa tem pra falar, adicionado ao que o Ayrton sempre teve para demonstrar. Usando essa lógica, um dos melhores momentos do documentário, na minha opinião, é quando a somos levados junto ao carro do Ayrton (aquelas cenas que mostram a visão do piloto por uma câmera presa ao lado do carro). Primeiro ninguém fala nada, enquanto as imagens mostram a tamanha dificuldade que é pilotar um carro de F1 com diversas curvas e uma velocidade frenética. Depois de alguns segundos, a voz tranquila de Ayrton é ouvida ao fundo, e ele começa a explicar qual é a sensação dele ao pilotar um carro de corrida. O quanto ele se entrega ao momento, o quanto ele relaxa enquanto pilota. Junto a isso o espectador começa a ver as coisas com mais tranquilidade (por entender e talvez sentir o mesmo que o Ayrton). E, no fim das contas, entendemos por que algo que parece ser tão complicado, era feito com maestria por ele.

Já no 3º ato, quando nos aproximamos do grande coringa do documentário, a morte de Ayrton, Kapadia toma a melhor decisão possível para o documentário. Ele remove qualquer trilha sonora e reduz ao máximo as falas, exatamente por se tratar do momento mais tenso do documentário e da vida de Ayrton. Ficamos diversos minutos notando a dor de Ayrton durante os treinos para a corrida de Ímola (devido a um acidente do Rubinho Barrichello, e outro que tirou a vida de Ratzemberger), e junto com o ídolo, o espectador começa a ficar cada vez mais tenso (afinal, sabemos exatamente o que viria a acontecer). E o acidente também é mostrado de uma forma perfeita. Mais uma vez somos levados à visão de Ayrton durante as suas últimas voltas. É como se estivéssemos juntos a ele, observando seu último momento na fórmula 1 e seu último momento vivo. Assim que Ayrton colide com a parede, aos poucos a trilha volta, e somos tomados pela emoção do momento.

No início do documentário, uma brasileira diz que o Ayrton "era a única coisa boa do Brasil". Ao final, enquanto o corpo de Ayrton era levado para ser velado, uma outra mulher diz: "o brasileiro precisa de comida, educação, saúde e alegria. A alegria se foi". E se você em algum momento se perguntar por que o Ayrton não saiu da corrida antes, e por que, mesmo com tantos "sinais", ele quis correr e não ficou fora, o próprio Ayrton responde. Quando Sid, médico da F1 e grande amigo de Senna, durante os treinos para a corrida de Ímola, pergunta: "Você gosta de pescar, por que você não desiste, se aposenta e vamos pescar juntos?", Senna responde:

"Sid, eu não posso desistir"


Nota: 5/5

terça-feira, 28 de junho de 2011

Variedades e Compilações - 2

Fala Galera!

Me enviaram um curta muito maneiro pra postar aqui no blog. O nome é The Black Hole (O Buraco Negro), escrito e dirigido por Olly Williams e Phil Sanson. O curta é basicamente uma crítica à ganância do ser humano.

Gostei MUITO do som (principalmente na hora do chocolate) e da montagem dinâmica desse projeto.

Enjoy!


sábado, 25 de junho de 2011

Crítica: Lunar

Direção: Duncan Jones

Roteiro:
Duncan Jones (história), Nathan Parker (roteiro)

Elenco:
Sam Rockwell (Sam), Kevin Spacey (voz, GERDY), Dominique McElligott (Tess)




"Acorde-me quando chegar a hora de desistir", escrito na camisa de Sam Bell (vivido, literalmente, por Sam Rockwell) logo na primeira cena deste no filme, já deixa bem claro para o espectador a situação em que o personagem vive. Contratado pela empresa Lunar, responsável pela extração de um gás (Hélio) que supre 70% da energia utilizada pelo planeta, Sam cumpre um contrato de 3 anos trabalhando sozinho em uma estação na Lua. "Sozinho", "Lua" e "3 anos" seriam palavras/expressões suficientes para que imaginássemos a situação enlouquecedora que qualquer pessoa viveria. "Enlouquecedora" seria a palavra perfeita para descrever a situação do personagem Sam no decorrer do filme. E "Excelente" seria a minha avaliação do filme, caso não contasse com 2 graves problemas, que serão retratados abaixo.

Com o passar do filme, aprendemos que Sam tem uma esposa e uma filhinha esperando-o na Terra, e assim que seu contrato chegar ao fim, ele será levado de volta para casa. Sua única fonte de relacionamento durante sua estadia é o computador GERTY (voz de Kevin Spacey, um erro, na minha opinião, que será comentado adiante), que o auxilia em suas funções diárias, além de servir como companhia para o rapaz.

A idéia geral do filme é muito interessante, e me atrevo a dizer que o ator que escolheram para tamanha responsabilidade é perfeito. Depois de atuações sempre coadjuvantes e sempre marcantes em diversos filmes (como Frost/Nixon, Homem de Ferro 2, O Guia do Mochileiro das Galáxias e, a melhor de todas, À Espera de Um Milagre), Sam Rockwell consegue uma atuação extremamente sólida e convincente (e pela primeira vez tem a chance de ser protagonista). Não bastasse a dificuldade de criar um personagem que convivesse com a solidão há quase 3 anos, ele teve ainda de criar outro, com as mesmas lembranças, apenas um pouco mais "renovado" (pra quem não viu o filme, este é um convite para assisti-lo).

Mas mesmo assim, há um grande problema por traz da sua atuação: o roteiro do filme. Duncan Jones, diretor e criador da história por traz do longa (que por sua vez é escrito pelo também novato Nathan Parker), tem sua estréia no cinema com este Lunar. E por mais que a crítica mundial tenha rasgado elogios para Jones, ao meu ver, além de sua direção esconder todo o real potencial de Rockwell, ela não consegue consertar um roteiro com falhas notáveis.

Tendo ciência do excelente ator que Rockwell é, Jones poderia e deveria ter explorado muito mais os momentos emotivos do ator no filme. Cenas como, por exemplo, a que Sam consegue contato com a sua filha são cortadas bruscamente (o que remeterá, mais à frente, ao meu comentário sobre a fraca montagem do filme), e ao invés de Jones focar na emoção de Sam (sentimento que deveria estar fortemente ligado a sua loucura), este prefere fazer o corte para mostrar um plano aberto do local onde Sam se encontra e do planeta Terra ao fundo. Por mais que a fotografia desta cena (e do resto do filme) seja belíssima, com uma utilização de iluminação perfeita em todos os ambientes, este momento seria perfeito para valorizar tanto o personagem quanto o ator. No final das contas, Rockwell acaba com uma atuação perfeita no quesito "enlouquecido" e muito regular no quesito "emoção". E isto é imperdoável se levarmos em consideração tudo que Sam descobre no decorrer do filme.

Não podemos, de forma alguma, culpar Rockwell por isto. Como dito acima, os 2 graves problemas do longa são o roteiro e a montagem. A baixa qualidade do primeiro é notada pela falta de coesão da história em si. Há momentos muito próximos com atitudes completamente distintas, perdendo completamente o sentido das cenas. Veja, por exemplo, o momento em que Tess (Dominique McElligott), pela primeira vez no filme, envia uma mensagem para seu marido. Ela está feliz com a volta do mesmo, que ocorreria em 2 semanas, para que, alguns dias depois ela enviasse outra mensagem dizendo que está na dúvida de como está o relacionamento de ambos. Outro momento que estas falhas são notáveis é quando Sam, temendo estar ficando louco, desenha na parede do banheiro smiles para contar os dias que faltam para voltar para casa sendo que, na cena seguinte, ele se entregaria à loucura e começaria a conversar com uma pessoa que não deveria existir. Não faz sentido.

Quanto à montagem (realizada por Nicolas Gaster), entendo que há uma grave dificuldade em montar um filme onde um dublê de corpo está sempre presente, e as trocas de cenas devem ser feitas perfeitamente para que este dublê de corpo sempre aparente ser o próprio ator. Mas de qualquer forma, os cortes nunca conseguem ser orgânicos. Um exemplo claro disso é quando Sam começa a lutar consigo mesmo, onde os cortes são muito bruscos e rápidos. O espectador não consegue entender o que está acontecendo (tudo bem, nós sabemos que ambos estão brigando, mas fica uma briga sem sentido pois você nunca sabe onde está cada um), tudo fica extremamente embolado.

É evidente que estas falhas não podem ser atribuídas apenas à montagem ou ao roteiro. O diretor Duncan Jones está envolvido do início ao fim do projeto, e além dele ser o responsável pela decupagem (ação de levar à tela o que consta no roteiro), ele também decide a versão final da montagem do filme. Por mais que tenha sido apenas seu primeiro projeto, acredito que faltou atenção aos pequenos detalhes que, acumulados, acabaram gerando cenas desconfortáveis no decorrer do filme.

Deixando de lado seus pontos negativos, o filme acerta em cheio em seu design de produção. Com um trabalho exemplar tanto na cenografia, quando na direção de arte e maquiagem (todos auxiliados pela já elogiada fotografia), a estação espacial é criada no intuito de acentuar a situação incômoda (e propícia para a loucura) que Sam vive. Tudo é muito branco, e o único momento em que Sam aparece com uma roupa colorida é exatamente na primeira cena, com os dizeres "Acorde-me quando chegar a hora de desistir" (funciona perfeitamente, além de ser um trocadilho de cores interessante). Não poderia deixar de comentar sobre a maquiagem, que faz um trabalho muito realista ao retratar os ferimentos de Sam.

Saindo um pouco da análise técnica no filme e entrando numa análise lógica (que eu adoro e foi exatamente o que me motivou a criar o TCNF no Youtube), gostaria de fazer uma crítica à história de Lunar. Eu simplesmente não consegui entender qual é a necessidade da existência de uma pessoa trabalhando naquela estação. GERTY, o computador, consegue realizar todas as tarefas que seriam endereçadas ao Sam. E o que me fez chegar a esta conclusão foi o fato de que, mesmo este sendo um robô (ou computador, como queiram), ele tem inteligência o suficiente para tomar atitudes emotivas (como quando ele deixa que Sam saia da estação, mesmo após receber ordens para que não, ou quando ele diz estar preocupado com Sam), o que excluiria a necessidade de um ser humano "por tomar iniciativas que um robô nunca conseguiria". Outro momento que prova a maior eficácia do robô do que do humano é quando este segundo corta alguns fios, e o robô que vai concertar. Volto a perguntar, qual a necessidade de um ser humano numa estação destas?

E para finalizar com as minhas críticas negativas, uma idéia correta e uma escolha errada fizeram com que a voz de GERDY (fundamental para a lógica do longa) acabasse se tornando algo negativo para o filme. A idéia de trazer uma voz com um tom tranquilo é perfeita, exatamente pelo fato de uma voz muito tranquila ser completamente irritante, mas, escolher Kevin Spacey para fazê-la estraga com a lógica. A voz marcante do ator sempre irá nos remeter à sua figura, e acabamos não compreendendo como é viver numa estação daquelas com um robô falando no seu ouvido durante 3 anos. Exatamente por conhecermos o dono daquela voz, nos distanciamos do personagem do filme e somos remetidos ao próprio Kevin Spacey.

No geral: uma atuação competente, extremamente mal aproveitada em um longa com altos e baixos técnicos que, talvez por falta de experiência, não tenha atingido o nível desejado por todos por trás do projeto.


Nota: 2/5

(Abaixo o trailer de Lunar, note a camisa colorida logo no início)

quarta-feira, 22 de junho de 2011

TCNF: M. Night Shyamalan

Pra quem não sabe, Te Critico no Fubá se iniciou como um canal no youtube para "críticas" a filmes toscos, depois virou um canal pra falar de filmes em geral (mas ainda focando em filmes ou personalidades toscas do cinema).

Assim como estes filmes, meus videos são bastante toscos, mas, por incrível que pareça, tem gente que gosta (e não, não estou contando meu pai, minha mãe, minha namorada e meus amigos) :D.

Este é meu último video postado, sobre o que passa na cabeça de M. Night Shyamalan.

Enjoy !!

(Ah sim! Eu não tenho a menor idéia de como editar um video, e sou preguiçoso demais pra aprender!!)

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Crítica: A Onda (2008)

(Alemanha)

Direção: Dennis Gansel

Roteiro: Dennis Gansel, Peter Thorwarth


Elenco: Jürgen Vogel (Rainer), Frederick Lau (Tim), Jennifer Ulrich (Karo)




Ocorrido originalmente em Palo Alto, California, "A Terceira Onda" (The Third Wave) foi um experimento criado pelo professor de história Ron Jones para demonstrar aos seus alunos como o povo alemão teria sido seduzido pelo Nazismo, e cometido os diversos tipos de atrocidades com o judeus antes e durante a Segunda Guerra. Ele teria optado pelo experimento pois os alunos não conseguiam entender como seus antepassados foram capazes de executar tudo que o III Reich ordenava e como poderiam agir praticamente como marionetes. A melhor forma de alcançar isto seria criando uma situação semelhante, levando os alunos a cultivar um sentimento semelhante como vivido no passado (mesmo que em uma circunstância completamente diferente).

Baseado nestes acontecimentos e no livro "The Wave" de 1981, o filme "A Onda" (uma produção alemã, dirigida por Dennis Gansel) se esforça ao máximo para se manter fiel à história original, e consegue, na maior parte do tempo. Como estava sendo transformada em uma produção cinematográfica, é claro que algumas mudanças teriam de ser feitas. Alguns personagens foram adicionados, o final é alterado e a história ocorre na Alemanha e não nos EUA. Eu acredito que não seria apenas uma questão de iniciativa da produção do filme em levá-lo à Alemanha, mas também uma forma de exemplificar como a autocracia exerce grande influência nas pessoas mesmo após de viver anos na democracia, e por tal, o lugar mais apropriado para demonstrar isto, por razões óbvias, seria a Alemanha.

Como um longa-metragem, "A Onda" se sai excepcionalmente bem. Com o início das aulas de Rainer Wenger (personagem baseado em Ron Jones, aqui muito bem interpretado por Jürgen Vogel), e o início do projeto, aos poucos, podemos observar o interesse despertado nos alunos por esta nova "forma de governar" instalada em sala de aula. O professor inicia seu projeto arrumando a sala em fileiras paralelas com apenas 2 lugares compostos, sempre, por um aluno com notas altas e outro com notas baixa (desta forma todos poderiam alcançar a igualdade, com um aluno ajudando o outro). Com o passar do tempo, um uniforme, um símbolo, uma saudação e o nome são criados, tudo isso sob as ordens do, agora nomeado, "Sr. Wenger". Sempre usando conceitos como "Força através de disciplina", "Força através da ação", "Força através do orgulho", "Força através da união", Rainer consegue a total dedicação de seus alunos no seu projeto.

Podemos também perceber quando as coisas começam a sair do controle, com alunos iniciando atos de vandalismo pela cidade. Da pra perceber o quanto empolgados todos estão com este novo regime em que vivem. Aos poucos mais e mais pessoas aderem à causa da Onda, até que o grupo começa a se rebelar contra as pessoas que não aceitam fazer parte deste. Entradas passam a ser restritas, e até um espaço na arquibancada para assistir a uma partida de polo-aquático é reservado apenas para os membros do grupo. A direção do filme é correta, e podemos de fato perceber cada mudança vivida por cada integrante do grupo.

As únicas grandes falhas do filme acontecem em 2 cenas com o próprio professor Rainer Wenger. Um ponto muito importante, e que nunca devemos esquecer, sobre o grupo "A Onda", é que este fazia parte de um projeto. Houve um princípio de expansão, que viria a ser interrompido pelo próprio professor ao perceber a dimensão que o grupo estava alcançando. Logo, neste projeto, a nossa única âncora com a realidade era o próprio professor, em outras palavras, com o passar dos dias, Rainer era o único que ainda encarava "A Onda" como apenas um projeto da escola (posso dizer que Rainer ainda atuava dentro do projeto, enquanto os alunos começavam a viver os ideais deste). Logo, a cena em que Rainer briga com sua esposa, fazendo colocações absurdas e contando vantagem pelo número de alunos em suas aulas (vale ressaltar que sua esposa estava grávida), foge completamente da lógica do professor. Rainer deveria ser o cara bom por trás de um grupo que fugia de controle, e não só esta cena, mas uma segunda onde a aluna Karo conversa com o professor sobre a situação do grupo. Esta temia que as coisas estariam de fato fugindo do controle dele (o que era evidente dentro da trama), e, mais uma vez, Rainer, tomando um tom ameaçador e desrespeitoso, despacha a aluna e acaba soando exatamente como um integrante do grupo. Como se estivesse sido influenciado pelas atitudes fascistas encarnadas no grupo.

Tropeços como este impedem que percebamos o esforço do professor ao tentar cancelar o projeto. Chega a ser estranho, no final do longa, vermos a sua cara de espanto com atitudes agressivas provenientes dos alunos, afinal, algumas cenas atrás ele havia feito exatamente o mesmo com sua esposa e sua aluna Karo.

De qualquer forma, não são 2 cenas que estragariam um bom filme. A história é envolvente e não só é baseada em fatos reais, como também soa como uma história real.


Nota: 4/5


Apenas para esclarecer, a partir deste ponto, se você não viu o filme fique avisado, pois irei contar o final da história real. Não é o final do filme, mas há a chance deste ser deduzido.

*****

Na história original, ao final da semana do projeto, o professor Ron (ao perceber que as coisas estavam fugindo do seu controle) envia uma mensagem a seus alunos informando que teriam a oportunidade de aparecer em rede nacional para divulgar os ideais do grupo "A Onda". Ao chegar no auditório, os alunos notam que apenas o professor os aguarda. Com a chegada de todos, Ron inicia um discurso mostrando para seus alunos que todos haviam participado de um experimento fascista, e que isto estava, de fato, subindo a cabeça de todos. Apresenta um vídeo sobre o nazismo na Alemanha e, ali, com o consenso de todos, a "Terceira Onda" chega a um fim.

É claro que, ao levar isto para as telas do cinema, não há nada mais apropriado que a inserção de um final fictício mais pesado e cruel (afinal, não há a menor dúvida de que o ocorrido no filme poderia ter ocorrido também na história real dos EUA). O final fictício é, sem dúvida, palpável e bastante satisfatório para a proposta do filme (e do projeto).

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Crítica: X-Men Primeira Classe

Direção: Matthew Vaughn

Roteiro: Ashley Miller, Zack Stentz, Jane Goldman, Mathew Vaughn

Elenco: Michael Fassbender (Magneto), James McAvoy (Xavier), Kevin Bacon (Sebastian Shaw), Jennifer Lawrence (Mística), Jason Flemyng (Azazel).



Inicio a crítica de hoje fazendo um comentário que faria jus ao que eu vi no filme: o nome deste não deveria ser X-Men First Class, e sim X-Men – Magneto (é claro que o filme não é sobre o Magneto apenas, mas sua participação é tão marcante, e tão superior a qualquer outra, que eu acredito que seria mais justo se fosse dessa forma). O filme se inicia com este, é desenvolvido a maior parte do tempo com a sua presença e tem em seu final uma apresentação do que este veio a se tornar. E não apenas isso, Michael Fassbender, que já teve participações marcantes em 300 e Bastardos Inglórios, consegue criar um Magneto que atinge todos os cantos possíveis e imagináveis do ódio, da compreensão, da amargura, do sofrimento e, por incrível que pareça, da compaixão. Sem exageros, até o momento e na minha opinião, esta foi a melhor atuação do ano.

Logo na primeira cena de X-Men First Class, Bryan Singer já deixa bem claro por que voltou à franquia X-Men: para ajudar a reviver o sucesso que os dois primeiros filmes (escritos e dirigidos por ele) alcançaram. Começamos vendo a mesma cena na qual Eric Lehnsherr (Magneto) é separado dos pais, em um campo de concentração de judeus durante a segunda guerra mundial. É nesse momento que já vemos o trabalho do diretor Matthew Vaughn (do fantástico Kick-Ass e do divertido Stardust) e Singer, traçando um laço que une diretamente o primeiro filme ao First Class, ao mostrar Sebastian Shaw (vivido energicamente e com uma dose certa de maldade por Kevin Bacon) em uma janela observando o jovem que viria a ser Magneto. Shaw, que neste período trabalhava como um médico nazista, vê o potencial do garoto e inicia alguns testes com o menino com intuito de libertar seu poder. Não tendo sucesso, Shaw apela algo mais grave: traz a mãe do menino (não se esqueçam, isso se trata de um campo de concentração, o contato dos dois era nulo até então) para seu “consultório” (a troca de posição da câmera efetuada por Vaughn, revelando uma sala de tortura, imediatamente causa um choque no espectador, e passamos a entender toda a pressão que sofre o jovem Eric), e aponta uma pistola para a mesma. Desesperado o menino tenta passar no teste do médico (onde ele deveria mover uma moeda). Ao falhar, Shaw atira em sua mãe. O ódio toma conta do menino que destrói tudo que era feito de metal na sala. Esta cena é fundamental para entendermos o início do processo de criação do vilão que viria a ser Magneto. Não se trata, então, apenas de um menino que perdeu os pais no holocausto. Trata-se de um menino que nasceu e foi criado com uma forte idéia de vingança, fortalecida pelos traumas que Eric sofreu.

O mais interessante disto tudo é que nós sabemos quem é o Magneto. Sabemos qual o tipo de vilão que ele é e o quanto ele é poderoso. Mas ao vermos pelo que o menino Eric passou, automaticamente ficamos ao seu lado, e o vilão, passa a ser o herói quando, já adulto, procura todos os responsáveis por tudo que sofreu. É evidente que ao fim, sabemos que não estaremos mais ao seu lado (teoricamente), mas mesmo assim vibramos com cada passo em direção a esta vingança e, enquanto ele não a alcança, estaremos apoiando-o. Este é um ponto muito positivo do roteiro, que, logo de início, já nos coloca no “mesmo time” do protagonista do filme, exatamente aquele que sempre tivemos como o grande vilão da história.

Com uma montagem com cenas rápidas (há uma referência aos quadrinhos durante a cena do treinamento), o que beneficia principalmente Azazel (interpretado por Jason Flemyng) com suas excelentes cenas de lutas, desta vez X-Men First Class foca no ponto que sempre foi o diferencial na franquia X-Men: no poder de cada mutante. Afinal, quem aí assiste aos filmes X-Men e não fica empolgadíssimo com todas as façanhas produzidas pelos mutantes do filme?

Apostando nisso, a produção traz diversos mutantes e poderes diferentes, sendo que cada um tem o seu momento para ser apresentado ao espectador, tomando quase metade da produção. Outra decisão muito inteligente de Vaughn e Singer foi de deixar o poder de Sebastian Shaw por último, afinal se tratava do grande vilão do filme, e, nos trailers, o seu poder foi tratado como uma grande incógnita. Apenas no meio do segundo ato que sentimos um “Ok, chega de poderes, vamos à história”. A idéia em geral é excelente, mas, a execução acaba sendo exagerada. Por exemplo, os personagens Riptide, Darwin e Angel (o rapaz que cria tornados, o taxista que “se adapta para sobreviver” e a vespa que cospe bolotas de fogo) são completamente descartáveis. São mutantes com poderes sem graça e não fazem a menor diferença na história. E além do mais, o mutante Riptide, de tão inútil que é, não fala sequer uma palavra o filme inteiro.

Outro ponto importante a ser comentado são os efeitos visuais do filme. Literalmente 8/80. Momentos espetaculares, e momento tosquíssimos. Por exemplo: no ataque de Sebastian Shaw à primeira base dos X-Men, a cena em que os agentes abrem fogo, ele absorve os tiros, e libera a energia explodindo tudo à sua volta é magnífica. De uma qualidade de cair o queixo. Por outro lado, a cena em que Xavier (vivido com uma tranqüilidade contagiante por James McAvoy) e Fera (interpretado por Nicholas Hoult) estão correndo do lado de fora da mansão é péssima. Chega a ser ridículo assistir a uma cena dessas e pensar que ela passou por horas de pós-produção e não foi melhorada. Não consigo entender o que houve para tamanhas divergências no mesmo filme.

O último aspecto técnico que eu gostaria de ressaltar, e o que, junto com a atuação de Fassbender, foi a minha grande satisfação da noite, é a trilha sonora. Foi simplesmente incrível sentir as músicas acompanhando cada cena tensa, cada cena alegre, cada cena vitoriosa, e cada cena desastrosa. Henry Jackman (que já havia feito a trilha de Kick-Ass) acerta em cheio em todas as suas composições, fazendo uma rima visual/sonora perfeita.

Para finalizar vou citar duas cenas maravilhosas, cujo planejamento e execução foram perfeitos: a primeira, ainda no primeiro ato, quando Eric vai à Argentina se vingar de dois oficiais alemães que haviam fugido da Alemanha após o término da guerra. Com uma união perfeita de efeitos visuais, trilha sonora e atuação de todos os atores envolvidos (além de uma bela fotografia amarelada, nos remetendo a um trocadilho visual com um momento “faroeste”, pois, de fato, ocorre um duelo), temos a cena mais empolgante de todas. Não pude deixar de soltar um “O MAGNETO É F%&A” ao fim.

E a segunda cena, no segundo ato, é o instante em que notamos a força do laço existente entre Xavier e Eric, é o momento em que Xavier tenta ensinar o seu amigo a controlar seu poder. Para isto, Xavier entra na mente de Eric e resgata sua lembrança mais feliz. A cena é simplesmente linda. Xavier se emociona junto com o seu amigo, e com isso, vemos uma lágrima escorrendo no seu rosto. A suavidade da fotografia e a delicadeza com que Vaughn carrega a cena é simplesmente emocionante. Contando também com uma atuação digna de aplausos dos dois atores.

Um filme que vai aos extremos nas atuações, nos efeitos visuais, na trilha sonora e em diversos outros aspectos. Passando por momento toscos e momentos memoráveis, no geral, é um excelente filme com cenas que ficarão guardadas por um bom tempo na minha memória. Sem sombra de dúvida.

Nota 4/5

(Veja no post abaixo, a cena onde Magneto usa seu poder para retirar um enorme submarino de dentro da água. Nesta cena podemos ver algumas coisas citadas na crítica acima: note a relação próxima entre Xavier e Magneto, quando o primeiro volta a aconselhar seu amigo no uso de seu poder. Note também os extremos dos efeitos visuais, com uma cena ruim que é quando Magneto aparece junto à roda do avião, e outra excelente, que é a levitação do submarino em si. E não só isso, notem a esperteza de Vaughn em empregar uma câmera lenta exatamente no momento em que Magneto consegue alcançar o máximo de seu poder e ser acompanhado por uma trilha sonora que aos poucos aumenta, fica mais forte e, por fim, triunfante).




PS.: Para quem conhece os personagens do mundo dos X-Men, vai infartar, como eu, com 3 referências no segundo ato. Duas pequenas e uma que é simplesmente espetacular.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Variedades e Compilações - 1

Fala Galera!

Essa é pra quem sempre gostou da presença da dança no cinema. Recebi esse vídeo com momentos marcantes de danças em diversos longa-metragens.

Ao final comentem dizendo qual é o seu filme favorito (ou dança favorita). O meu, sem a menor sombra de dúvida, é o que viria a se transformar no clipe musical de Smooth Criminal do Michael Jackson, cena que faz parte do filme Moonwalker (1988).

Também dou créditos à dança de O Balconista 2 (2006, escrito e dirigido por Kevin Smith), por se tratar de um momento bastante divertido e diferente do filme (se não reconhecerem, são as cenas com os dois marmanjos de chuquinhas).


segunda-feira, 13 de junho de 2011

Crítica: Filhos da Esperança

Direção: Alfonso Cuarón

Roteiro: Timothy J. Sexton, Alfonso Cuarón, David Arata, Mark Fergus, Hawk Ostby e P.D. James (material original).

Elenco: Clive Owen (Theo), Michael Caine (Jasper), Julianne Moore (Julian), Chiwetel Ejiofor (Luke), Pam Ferris (Miriam).





Filhos da Esperança começa com uma narração em off, que percebemos se tratar de um noticiário, onde um relato sobre a morte de uma jovem celebridade parece chocar profundamente as pessoas que recebem a notícia. O jovem, conhecido como “Baby” Diego, já nos chama atenção por se tratar de um rapaz de 18 anos, morto por um de seus fãs ao recusar um autógrafo (mas hein???). A circunstância do acontecimento não tarda a ser apresentada quando, Alfonso Cuarón, no primeiro de seus diversos planos longos (cenas sem cortes), nos leva desde o interior da cafeteria onde é apresentado o noticiário, até a rua de uma cidade marcada pelo caos.

Mas por que o rapaz era celebridade e por que este sofrimento todo por sua morte? Pois bem, no decorrer do filme descobrimos que o “Baby” Diego se tratava da pessoa mais jovem do planeta, e que as mulheres sofriam de uma infertilidade gradativa que atinge o seu ápice exatamente após o nascimento do menino. Há 18 anos não nasce uma criança no mundo.

Uma Inglaterra destruída, seja por algum tipo de apocalipse, seja por questões políticas, já é bastante comum para quem gosta deste tipo de drama (28 Dias Depois e V de Vingança são ótimo exemplos). Aqui, temos uma Inglaterra vista (pelo seu próprio governo) como última esperança do planeta. E entre imigrações ilegais e o início de uma guerra civil, vemos um governo que de fato tenta encobrir uma realidade mundial que já faz parte do país. E é exatamente neste ambiente que somos apresentados a Theo, interpretado maravilhosamente bem por Clive Owen, um homem já sem esperanças (assim como grande parte do mundo) que vive sua vida em função dela mesma.

É impressionante o nível de realismo alcançado por Cuarón e por seu diretor de fotografia Emmanuel Lubezki (responsável pelas belas fotografias de Desventuras em Série e A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça) ao retratar uma Inglaterra destruída por toda a extensão do longa. Na maioria do tempo com a câmera em mãos, Cuarón nos leva junto com Theo por becos, vales, ruas destruídas, edificações em ruínas, dando a sensação de estarmos acompanhando-o em sua jornada. Diversos planos com longa duração, nos levam desde a tranquilidade de um carro de passeio à situações tensas onde tememos pela vida dos personagens.

E é exatamente o plano que se passa dentro de um carro de passeio que chamou minha atenção. Cuarón passa quase 5 minutos, sem cortes, com uma câmera que parece flutuar, passando pelo rosto de cada um dos personagens, girando 360º e indo de dentro para fora do carro. Nestes 5 minutos, somos levados a diversos momentos e sensações diferentes. Começamos com uma pequena apresentação do ambiente, onde a câmera recua e nos mostra o ambiente apertado onde os 5 personagens se encontram. Após isso, a câmera se aproxima dos viajantes, para nos mostrar mais de perto como todos se portam, e todos estão bem (podemos notar até um pouco de esperança emanando de cada um, o que, para a situação em que vivem, é algo raro). Com outro giro, vemos o início de uma brincadeira que todos parecem gostar. Nos sentimos agradados pela felicidade dos personagens, pois seria o primeiro momento onde ficamos à vontade com a situação dos personagens. A câmera gira, nos leva para fora do carro. Um carro em chamas e atirado na frente do veículo, dezenas de pessoas descem gritando e atacando o carro, uma moto aparece em cena, um tiro é dado e uma pessoa que tinha se tornado querida para o espectador morre.

São reviravoltas deste tipo que fazem com que Filhos da Esperança seja tão genial. O sentimento é de estarmos presentes, a Inglaterra ser a nossa cidade e fazermos parte dessa raça humana na beira da extinção. Junto a isto Theo é a nossa única esperança, seu carisma (notado até mesmo pelos bichinhos de estimação do filme, que, assim como nós, confiam nele) faz com que a sua jornada vire a nossa jornada.

Vale dizer que não apenas a direção de Cuarón e a fotografia de Lubezki merecem aplausos. O roteiro, escrito junto por 5 pessoas (incluindo o Cuarón), consegue nos mostrar a premissa da história (importantíssimo para que possamos entender o que levou à situação atual) de forma absolutamente orgânica. Tanto, por exemplo, ao contar a história por traz do filho de Theo (aos poucos, com acontecimentos palpáveis), como ao trazer o passado da personagem Miriam (que descobrirmos ser médica obstetra), o roteiro convence. Assim como a direção de arte, que enche os cenários com referências, tanto ao passado pacífico vivido pelos personagens, quanto à crescente crise que assolou o planeta. A todo o momento vemos recortes de jornais, retratos, quadros, que nos mostram como as coisas eram, pelo o que tudo passou e aonde tudo chegou.

Depois de passarmos por mau bocados, desviando de balas e evitando sermos pegos com o bem mais precioso da raça humana (e também sua única esperança de sobrevivência). Após presenciar o poder da inocência de um bebê, forte o bastante para cessar com um conflito, e não tardar para que a cegueira pelo conflito em si volte a assolar as pessoas que deixam de perceber que a sua salvação está ali, a alguns centímetros, para voltar a guerrear. Após atingirmos a exaustão sem nunca deixar de ter esperança, conseguimos ver pela última vez o fruto de nosso esforço bem à nossa frente. Seguro.

Nota: 5/5

(Veja a cena de abertura do filme abaixo. Prestem atenção na forma como Cuarón inicia o filme, e na forma como ele nos leva para fora da cafeteria. Gentilmente ele nos mostra a situação que se encontra o mundo e, a partir daí, começamos a entender a razão de tanto sofrimento pela morte de um jovem. Infelizmente não encontrei o vídeo legendado)