quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Crítica: Melancolia

Direção: Lars von Trier

Roteiro:
Lars von Trier

Elenco:
Kirsten Dunst (Justine), Charlotte Gainsbourg (Claire), Kiefer Sutherland (John), Stellan Skarsgard (Jack).

Tomatometer:
80%


Parte 1: A crítica em si (não há spoilers)

Sinceramente, ainda não me sinto a vontade de escrever sobre um filme tão rico em subjetividades e sutilezas quanto este Melancolia de Lars von Trier (Dogville, Anticristo). Não me sinto a vontade pelo simples fato de não ter conseguido, ainda, captar ou entender todas estas sutilezas para enriquecer a minha compreensão e crítica do longa. Mas ao mesmo tempo, me sinto na obrigação de relatar a experiência que foi passar mais de 2 horas na sessão de um dos filmes mais belos, mais tristes e mais intensos que já assisti.

O super pessimista Lars von Trier consegue a partir de um roteiro muito bem escrito, um filme muito bem montado, uma fotografia maravilhosa, uma trilha sonora tão intensa quanto à idéia em si do longa e uma direção corretíssima, criar um filme que vai ser carregado e repensado por dias por quem assistí-lo. É notável o quanto angustiado fiquei após ver o filme, e é exatamente nesse ponto que notei o quanto Lars acertou no que fez.

Melancolia conta a história de Justine e Claire, duas irmãs de passado sofrido e de relacionamentos conturbados, tanto entre si quanto com todo o resto da família, enquanto a Terra sofre a ameaça de ser atingida por um enorme planeta azul.

Logo na primeira foto do filme, Lars já demonstra qual a mensagem do longa. O rosto angustiado e sofrido de Justine é a primeira de diversas imagens em câmera lenta, que não deixam de passar uma enorme tensão até mesmo quando mostram um lindo cavalo negro deitando na relva. Com uma fotografia desbotada e uma trilha sonora tocante, os 10 minutos (talvez menos, talvez mais) da introdução são exaustivos ao extremo, e ao final, o espectador já se envolveu com o filme o suficiente para se encontrar angustiado. Ou seja, pronto para assistir ao filme (uma tirada genial de Lars). Aí a história começa.

Como já escrevi acima, de cara já da pra sacar que Lars sabe o que quer alcançar. Mas o mais importante é que ele sabe como fazê-lo. A sua direção é corretíssima quando, por exemplo, ele segura sua câmera na mão do início da história (após a introdução) até o fim. Dessa forma o filme não transcorre de forma chata ou monótona. Afinal, ele sabe que o tema abordado é um tema sofrido e cansativo, e retratá-lo com tomadas fixas seria a morte do longa (ninguém suportaria aguentar o sofrimento do filme somado ao tédio da direção). Não só as imagens são tremidas, mas sempre nos levam aos rostos de cada personagem, com cortes rápidos ligando (por exemplo) pontos extremos, como se fosse de fato alguém olhando de uma pessoa para a outra. Além de situar o espectador dentro do filme, esta forma de filmar faz com que o longa fique mais dinâmico.

O que vai mais além do que a boa direção de Lars é o seu excelente roteiro. A progressão da história é feita com um cuidado enorme, pois mesmo após passarmos uma tensa introdução, apenas aos poucos conseguimos entender a razão de toda a suposta melancolia do longa. Somos apresentados à Justine (Kirsten Dunst, na melhor atuação de sua carreira, vencedora em Cannes e digna de uma indicação ao Oscar), que em um primeiro momento parece ser uma pessoa feliz. Ao caminho de seu casamento, ela se diverte com o seu noivo enquanto sua limosine tenta manobrar pelas apertadas ruelas até a mansão onde seria a festa. Ela parece satisfeita com sua vida, e feliz com seu noivo. Mas aos poucos nos são entregues, por atores de primeiríssima qualidade, situações constrangedoras pelas quais Justine tem de passar, e aos poucos entendemos que o real sentimento de Justine se compara ao que sentimos durante a introdução.

O mais interessante é que, como fomos introduzidos ao filme de uma forma tensa e angustiante, mesmo com a felicidade da protagonista, sempre ficamos com uma pulga atrás da orelha em relação à satisfação da mesma com a vida que leva. E um outro exemplo dessa suspeita ocorre durante a festa, quando Jack (Stellan Skarsgård), suposto chefe de Justine, faz um discurso “animado” para a noiva informando sobre a promoção que esta havia acabado de ganhar. Vejam bem, a situação é agradável para a noiva (e Lars faz questão de mostrá-la sorrindo com a notícia), mas a dúvida persiste para o espectador, apenas para, no decorrer do longa, essa suspeita fosse concretizada. É prazeroso ver um filme com um roteiro tão bem trabalhado. Um roteiro que vai moldando a percepção do espectador, e ao final entrega a este a confirmação de suas suspeitas.

Ao passar pela direção e pelo roteiro, não posso de deixar de mencionar a bela fotografia de Manuel Alberto Claro e a trilha sonora muito bem trabalhada do longa (que conta com a tocante e belíssima Tristan and Isolde, Prelude de Richard Wagner). A união de telas desbotadas com a tensão da orquestra criam o clima perfeito (já comentado na crítica) na introdução, e carregam o espectador no decorrer do filme com o mesmo cuidado que o roteiro. Quanto mais próximo o planeta ameaçador se encontra da Terra, mais densa a fotografia fica (mais azul, por ser a cor do planeta), assim como faz a trilha (devo ressaltar que a música de Wagner é perfeita para o longa, nota 10 pela escolha de Lars).

Minha única crítica negativa fica para o fim dado a John (personagem de Kiefer Sutherland, também conhecido como Jack Bauer). E por incrível que pareça reside basicamente na forma como roteiro de Lars (tão elogiado) encontrou para isto. Sem revelar nada da trama, em certo momento, a ação tomada por John simplesmente não condiz com o seu personagem. A solução encontrada por Lars pareceu muito forçada e desnecessária. O momento poderia ter sido repensado.

Termino minha crítica fazendo um comentário pessoal sobre a influência que o filme teve em mim: para quem é ateu como eu (e acredito fortemente que também é o caso de Lars von Trier, mesmo não tendo pesquisado nada sobre isso), o filme terá um efeito extra. Irei citar o momento exato abaixo, mas foi realmente angustiante deixar a sessão de Melancolia pensando nesse momento. De qualquer forma, cada um acredita no que quiser (ou não acredita), mas o que todos provavelmente vão concordar é que Melancolia é uma tensa, densa e linda experiência. Além de muito melancólica.



Parte 2 – Sutilezas (HÁ SPOILERS)

Ao iniciar a crítica, mencionei que não estaria “preparado” para escrever essa crítica pela riqueza de detalhes do filme de Lars. Pois não poderia escrever esse texto sem apontá-los (tanto as que eu entendi, como as que eu acho ter entendido como as que eu definitivamente não consegui entender):

1) Ao fim da festa de casamento, a garrafa com os feijões (o que deveria ter sido uma das “brincadeiras” da festa) é levada à atenção de Claire (Charlotte Gainsbourg). O organizador revela à Claire o número de feijões que havia na garrafa, e apenas ela está presente (além do antigo mordomo do Batman, mas tudo bem...). Ao final do longa, quando o Melancholia já está a caminho da Terra, Justine revela à Claire o número exato de feijões que estavam na garrafa, apenas para, após isso, afirmar: “Eu sei de coisas Claire, só existe vida na Terra, em mais nenhum outro lugar” (ok não lembro palavra por palavra, mas a lógica foi essa). Nessa hora eu arregalei os olhos e pensei (*¨#%¨& que o pariu). Agora a minha explicação: um dos pensamentos que podem perturbar os ateus, é a aceitação de que a vida termina aqui. Isso pode ser bastante complicado para alguns (ou para todos, não sei). Neste caso, Lars faz este pequeno jogo com feijões apenas para, no fim do longa, reforçar a afirmação de Justine (que só existiria vida na Terra, e em nenhum outro lugar). Desta forma, a última cena se torna muito mais desesperadora. Afinal, a vida no universo havia encontrado um fim. Perturbador isso.

2) Até o momento em que o noivo deixa Justine e vai embora, Lars constantemente foca nos seios da protagonista. Chega a ser doentio a quantidade de closes que são dados nos seis de Dunst, mas quando parei para pensar cheguei a uma conclusão: o doentio foco nos seios da personagem era a mesma obsessão doentia que o seu noivo tinha por fazer sexo com Justine, e o isto se confirma quando Justine deixa-o no quarto de cuecas (após ser “apalpada” pelo mesmo) e ele vai embora, deixando sua recém casada esposa. Desta forma, indiretamente, Lars mostra para o espectador que até o bondoso noivo tinha algo de obscuro. Pelo menos eu acredito que esta seja a razão.

3) Quando Justine e Claire saem para cavalgar, o cavalo de Claire se nega a atravessar a ponte. Já ao final do filme, quando Claire tenta desesperadamente encontrar ajuda, indo ao condado, seu carrinho de golfe fica sem bateria justamente ao tentar atravessar a ponte. Na minha percepção, estes dois momentos são retrato da vontade de Lars de não retirar o espectador da área da mansão. Por que isso? Para que o espectador nunca deixasse aquela realidade. Afinal, todos os momentos angustiantes e frustrantes haviam ocorrido ali, observar a destruição da Terra de qualquer outro lugar não teria o mesmo efeito. A mansão já estava sufocante para quem vivia aquela história, e teria de ser sufocante até o final.

4) O grande ‘x’ da questão “Melancolia”: O 19º buraco de golfe. Pensei que pudesse ser uma tentativa de Lars manter o espectador pensando no filme após o fim da sessão, rebuscando as dicas e momentos que pudessem explicar algo que na realidade não teria explicação. Mas não sei, acho que deve haver uma explicação sim. Mas não consegui descobri-la, infelizmente. Talvez se eu assistisse ao filme de novo?


Nota 5/5

Abaixo o trailer, legendado.