quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Crítica: Diário de Uma Paixão


Direção: Nick Cassavetes

Roteiro: Jeremy Leven

Elenco: Rachel McAdams, Ryan Gosling e James Garner





Ontem à noite, após passar alguns meses ouvindo minha namorada falar do filme, assisti ao Diário de uma Paixão. Ao final do filme fiquei um pouco decepcionado com a falta de pegada do diretor que, baseado em um roteiro com furos claríssimos, não consegue aproveitar seu elenco em momentos que poderiam ter sido marcantes. Mas apenas hoje, enquanto trabalhava, que realmente percebi a influência que o filme teve em mim. A química entre Noah (a estátua Ryan Gosling) e Allie (a LINDA Rachel McAdams) foi forte o suficiente para que eu a guardasse no meu inconsciente, e apenas hoje, no dia seguinte, eu realmente percebesse o quanto me faz falta esse casal.

A história se passa no presente, onde somos apresentados a um senhor já de idade que vive em um asilo/hospital. Esse senhor faz companhia para uma senhora que perdera a memória devido a uma doença degenerativa, e para passar o tempo, ele lê para ela a história da vida de um casal que foi muito apaixonado desde o momento em que se conheceram, há muitos anos atrás. Somos então levados ao passado e vivemos aqueles momentos cheios de energia e amor vividos pelos jovens Noah e Allie.

A história do filme é água com açucar do início ao fim. Com uma fotografia bastante nítida, de cores muito vivas, o diretor Nick Cassaventes (do excelente, mas inconstante, Um Ato de Coragem e do irritante Uma Prova de Amor) conduz seus atores perfeitamente no início do longa, principalmente quando se trata da jovem Allie. Rachel McAdams, como se não bastasse ser linda, da um show como uma jovem que descobre o amor de forma explosiva, e sua expressão corporal ao ver Noah é sempre divertidíssima, convencendo do quanto apaixonada a sua personagem é pelo jovem rapaz. E é exatamente nisso que Cassaventes acerta, ao apostar numa abordagem mais infantil e inocente na relação do casal. É de fato contagiante ver o quanto os dois se gostam, e triste presenciar os momentos em que os dois se separam.

Não só com a atuação de McAdams, mas na própria atuação de Gosling, que aparenta ser um péssimo ator, Cassaventes conduz de forma correta. Não é a toa que, mesmo sendo o ator principal do longa (alternando, de certa forma, com James Garner, que faz o Noah mais velho), Gosling perde o foco quando Allie aparece na tela. Mas o interessante é que, mesmo que inexpressivo, Gosling não deixa de ter uma atuação agradável. Cassaventes consegue tirar um pouco de carisma da atuação de Gosling com um Noah que, mesmo sendo travado e tímido, não deixa de ser um clássico apaixonado que agrada o espectador.

Como dito acima, por mais que o longa se inicie muito bem, conseguindo envolver o espectador criando um laço com os jovens apaixonados, o roteiro de Jeremy Leven (que provou não saber escrever uma história de amor após trabalhar com Cassaventes no já comentado Uma Prova de Amor) não consegue estruturar sua história ao relacionar o presente com o passado. Primeiramente, o foco, ao trazer a história para o presente parece mudar com o decorrer do filme. Talvez com o passar do tempo, enquanto escrevia o roteiro, Leven tenha percebido que não conseguiria esconder o fato de que os dois velhinhos tinham alguma relação com a história contado pelo velho Noah (pelo simples fato de que isto fica óbvio desde o início), e decidiu “estragar” essa surpresa numa cena completamente descartável onde os filhos e netos são apresentados à mãe/avó que sofre de amnésia (esta, por sua vez, não reconhece seus familiares). A cena não adiciona absolutamente nada ao longa, e os belos dizeres de Noah (“Sua mãe é a minha casa, é o meu refúgio”) nesse momento poderiam muito bem ter sido utilizados no que viria a ser o “clímax” do filme.

Segundo, como acabei de dizer, o “clímax” do filme, mesmo com o entendimento de Leven sobre o destino de seu roteiro, parece que não foi modificado para se adaptar à sua “nova visão” da história. E faria sentido, caso o mistério sobre os velhinhos ainda estivesse valendo, mas como não está mais, o clímax acaba sendo absurdamente sem emoção exatamente quando esperávamos uma cena linda. A cena fica forçada, a atuação de Gena Rowlands (Allie velhinha) é péssima e acabamos ficando com um sentimento de pena por não ter visto o que estávamos esperando desde o início: uma explosão de emoção, como quando ambos eram mais novos.

Um outro péssimo momento da história que merece ser comentado é quando Noah e seu amigo Fin (Kevin Connolly, que também trabalhou com Cassaventes em Um Ato de Coragem) são recrutados para lutar na Segunda Guerra Mundial. Completamente descartável. A cena não adiciona em absolutamente nada no romance dos jovens (exatamente por não ser aproveitada nem pelo roteiro de Leven nem pela direção de Cassaventes). Era óbvio que uma segunda tentativa de Noah de contactar a Allie poderia ter sido inserida nesse momento, mas a cena da guerra serve apenas para ressaltar a fraqueza de Gosling como ator (afinal não há romance nesse momento para salvar sua atuação), que não demonstra qualquer emoção ao ver seu amigo de longa data morto. Uma cena que poderia muito bem ter recebido uma carga do mouse e uma clicada no “Delete” (ou uma esfregada de borracha).

Como todo romance, o final é previsível. E muitos deles, mesmo sendo óbvios, não deixam de funcionar e de emocionar. Para o Diário de Uma Paixão eu não consegui imaginar outra cena final que não um slow motion nos levando de volta ao Noah e à Allie jovens, sorrindo, se beijando e se abraçando. Seria muito bonito fechar o longa com uma imagem daquele lindo casal que, sem dúvida nenhuma, encantou a todos.

Agora... pássaros? O que estava passando na cabeça de Cassaventes quando decidiu fechar seu longa com um take de pássaros voando?

Nota: 3/5

(triste por não poder dar 6/5 pelo Noah e pela Allie)