domingo, 12 de fevereiro de 2012

Crítica: Os Descendentes



DIREÇÃO: Alexander Payne


ROTEIRO: Alexander Payne e Nat Faxon


ELENCO: George Clooney e Shailene Woodley








Antes de assistir a Os Descendentes, não pude deixar de perceber uma citação inserida no pôster do filme. Apesar de eu não lembrar exatamente qual foi o crítico, esta chamou bastante atenção, pois dizia que essa seria "a melhor atuação de George Clooney em toda sua carreira". Logo suspeitei da frase por dois motivos: o primeiro, pois da última vez que vi essa frase dita sobre o mesmo George Clooney, era referente ao seu trabalho em Michael Clayton, o qual eu achei bastante medíocre; o segundo, pois realmente não achava possível que sua atuação em Um Homem Misterioso seria superada. E até a metade de Os Descendentes a minha suspeita foi se concretizando, apenas para que, da metade em diante, me fosse entregue uma evolução de personagem pela qual eu não esperava. Alexander Payne conseguiu, George Clooney conseguiu. Essa foi a melhor atuação de sua carreira.


Dirigido por este já mencionado acima, e situado no Havaí, Os Descendentes conta a história de Matt King (Clooney), pai de família que, em momento delicado de sua vida, enfrenta o coma de sua mulher devido a um acidente de barco; a responsabilidade pela venda de um enorme terreno que por gerações permanece no nome de sua família; e a missão de cuidar de suas duas filhas, um tanto problemáticas, sem a ajuda da esposa.













A minha opinião sobre o filme acaba sendo exatamente o inverso do que ocorreu em Missão Impossível 4: O Protocolo Fantasma, onde, até a metade do filme fui apresentado a uma trama incrivelmente bem trabalhada e instigante, apenas para que, a partir da metade do 2º ato, esta trama fosse completamente destruída por resoluções clichês e estúpidas, que definitivamente não foram resolvidas com o mesmo cuidado com o qual foram criadas. Em Os Descendentes, somos apresentados a dois momentos interessantíssimos logo no 1º ato (serão descritos abaixo), e só. Todo o resto da história é chato, a apresentação de cada personagem é insuportável e suas ações não condizem com a situação em que vivem. Se iniciando pela pequena Scottie que, mesmo tendo apenas 10 anos e colecionando fotos da sua mãe em coma, não parece sentir a menor falta dela. Ok, a “desculpa” do filme é que a desculpa dada à menina é que sua mãe logo iria acordar. De qualquer forma, é muito estranho ver uma menina tão pequena encarando a situação com tanta tranquilidade e naturalidade. Me pareceu muito forçado.


A estrutura do filme fica bastante clara bem do início: estaremos assistindo à luta de um pai de família que, enquanto enfrenta adversidades de vários tipos, deve aprender a lidar com suas filhas, pois levando em conta o provável destino de sua esposa (Liz), deverá ser seu principal dever para o resto de sua vida. O grande problema é a forma como esta estrutura é desenvolvida. Na primeira cena do filme, Payne tem uma jogada de mestre ao nos apresentar à esposa de Matt em seus últimos momentos de vida. Ela não fala absolutamente nada, simplesmente se mostra incrivelmente feliz e satisfeita enquanto aproveita um passeio de lancha em alta velocidade. Entendam, essa ideia é incrível, pois acaba que, para todo o resto do filme esta é a única imagem da Liz que guardamos em nossa memória (que acaba sendo a principal "causadora" da maioria dos problemas enfrentados por Matt), e essa imagem positiva acaba sendo o mesmo tipo de lembrança que Matt deve carregar ao encarar estes problemas (ao sentir falta de uma pessoa querida tendemos a lembrar dos momentos felizes e plenos desta pessoa, ao iniciar o filme dessa forma, Payne quer que tenhamos este mesmo sentimento). Mas logo depois disso, o filme já parece não saber como contar sua própria história. Uma narração em off se inicia, onde o próprio Clooney começa a explicar TUDO que está acontecendo. Além de ser desnecessário para desenvolver a história (pois os espectadores conseguiriam entender o que está acontecendo com o passar do tempo e de forma natural), acaba sendo repetitivo e abandonado em meados do 2º ato, tornando-se nitidamente uma falha "corrigida a tempo". A conclusão que poderíamos tirar seria de um imensa falha de roteiro, que, para contar sua história, acaba uma usando uma ferramenta desnecessária, conseguindo abandoná-la horas após o início do longa, coincidência ou não, quando o filme começa a fazer mais sentido.


Não só sua filha Scottie parece não estar vivendo a situação em que realmente se encontra, sua filha mais velha entra na história como alcoólica-histérica e, ao ser a única companhia de Matt para encarar a situação, demora muito para que a presença dele ajude de fato o pai. Logo, desta forma, ao escrever o roteiro, Payne e Faxon parecem tentar a todo custo colocar uma pedra no caminho de Matt. E essas pedras muitas vezes não fazem o menor sentido, como a inserção do amigo de Alex, Sid que não passa de um COMPLETO débil mental, e suas atitudes só fazem irritar (coincidência ou não, o personagem leva o mesmo nome do bicho-preguiça de Era do Gelo). Como se seu personagem já não fosse inútil o suficiente, suas falas são completamente descartáveis, e a incansável tentativa do roteiro e fazer piadas estúpidas parecem se esforçar ao MÁXIMO em tornar Os Descendentes em um filme extremamente cansativo e desnecessário. Não apenas cansativo, mas sem sentido pois, em certo momento, o piloto da embarcação acidentada (que levou Liz a entrar no coma) aparece em cena, apenas para ser humilhado tanto por Matt como por sua filha Scottie. E notem, fica bastante claro que a culpa não foi de Troy (o piloto), e que foi de fato um acidente, uma fatalidade. Mesmo assim Matt trata Troy como culpado, e junto a sua filha demonstra uma enorme infantilidade (que para a segunda, seria justificável).


Com a única excessão da cena de abertura e, com uma pequena reviravolta que ocorre na primeira reunião da filha King (para decidir sobre a venda do enorme terreno pertencente à família), onde, no meio da conversa, Clooney demonstra o primeiro indício da excelente atuação ao fechar sua expressão e pensar na esposa (uma bela cena, muito bem dirigida por Payne que fecha a imagem no rosto de Clooney, fazendo com que nós espectadores também voltemos à realidade complicada que o protagonista vive), Os Descendentes pára por aí. E até meados do segundo ato, o filme é chato, um pouco absurdo e muito desnecessário (a cena em que Sid ri da sogra de Matt, que tem alzheimer, é ridícula e de uma enorme falta de respeito, e ter de ouvir a risada dos idiotas que assistiram o filme junto comigo foi de fato revoltante). Até que, em certo momento, Matt visita a casa do corretor Speers (cuja função no filme não irei revelar).


Nesse momento, Payne parece aprender como dirigir de forma adequada a situação em que Matt vive, e não apenas isso, Clooney inicia uma evolução comovente de seu personagem. As diversas sutilezas de sua atuação são belíssimas, além de ser o grande diferencial do longa. Seja na corridinha de pai aposentado, ou no beijo dado a uma certa pessoa após a visita à casa do corretor, ou na declaração dada à sua mulher no 3º ato, Clooney prova porque é um ator incrível. Mas o que faz o diferencial desta atuação, e não pode haver discussão quanto a isso, ocorre quando, pela primeira vez no filme, ele é elogiado pela filha. O sorriso de canto de boca, somado ao olhar sem jeito, mais o movimento de seu corpo (um movimento de constrangimento mistura com surpresa) garante sua presença no Oscar. Não só ao Oscar, mas ao hall da fama dos maiores atores de todos os tempos. Não estou exagerando, definitivamente. Isso que é atuação, você observar um ator incorporar um papel com enorme naturalidade, e, por certo momento, acabar esquecendo que aquela pessoa não é de fato real. Clooney consegue isso e, até o momento, merece o Oscar, na minha opinião (Jean Dujardin é o mais cotado a levar a estatueta, mas eu já vi O Artista, e por mais que sua atuação tenha sido brilhante, em nenhum momento deixou de ser uma atuação).


Provando que não apenas Clooney evoluiu com o decorrer das filmagens, Payne parece ter entendido como contar uma história decentemente ao concluir o longa sem usar nenhum tipo de narração, deixando o espectador entender a mensagem das últimas cenas por si só. Isso sim é a forma correta e respeitosa de preparar um filme, respeitando a inteligência de quem paga o ingresso para assisti-lo.


Mas como a quantidade de preguiçosos que vão ao cinema continua subindo, acaba fazendo sentido os filmes terem seus momentos mastigados…


Nota: 3/5


Abaixo, o trailer do filme.


quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Crítica: Melancolia

Direção: Lars von Trier

Roteiro:
Lars von Trier

Elenco:
Kirsten Dunst (Justine), Charlotte Gainsbourg (Claire), Kiefer Sutherland (John), Stellan Skarsgard (Jack).

Tomatometer:
80%


Parte 1: A crítica em si (não há spoilers)

Sinceramente, ainda não me sinto a vontade de escrever sobre um filme tão rico em subjetividades e sutilezas quanto este Melancolia de Lars von Trier (Dogville, Anticristo). Não me sinto a vontade pelo simples fato de não ter conseguido, ainda, captar ou entender todas estas sutilezas para enriquecer a minha compreensão e crítica do longa. Mas ao mesmo tempo, me sinto na obrigação de relatar a experiência que foi passar mais de 2 horas na sessão de um dos filmes mais belos, mais tristes e mais intensos que já assisti.

O super pessimista Lars von Trier consegue a partir de um roteiro muito bem escrito, um filme muito bem montado, uma fotografia maravilhosa, uma trilha sonora tão intensa quanto à idéia em si do longa e uma direção corretíssima, criar um filme que vai ser carregado e repensado por dias por quem assistí-lo. É notável o quanto angustiado fiquei após ver o filme, e é exatamente nesse ponto que notei o quanto Lars acertou no que fez.

Melancolia conta a história de Justine e Claire, duas irmãs de passado sofrido e de relacionamentos conturbados, tanto entre si quanto com todo o resto da família, enquanto a Terra sofre a ameaça de ser atingida por um enorme planeta azul.

Logo na primeira foto do filme, Lars já demonstra qual a mensagem do longa. O rosto angustiado e sofrido de Justine é a primeira de diversas imagens em câmera lenta, que não deixam de passar uma enorme tensão até mesmo quando mostram um lindo cavalo negro deitando na relva. Com uma fotografia desbotada e uma trilha sonora tocante, os 10 minutos (talvez menos, talvez mais) da introdução são exaustivos ao extremo, e ao final, o espectador já se envolveu com o filme o suficiente para se encontrar angustiado. Ou seja, pronto para assistir ao filme (uma tirada genial de Lars). Aí a história começa.

Como já escrevi acima, de cara já da pra sacar que Lars sabe o que quer alcançar. Mas o mais importante é que ele sabe como fazê-lo. A sua direção é corretíssima quando, por exemplo, ele segura sua câmera na mão do início da história (após a introdução) até o fim. Dessa forma o filme não transcorre de forma chata ou monótona. Afinal, ele sabe que o tema abordado é um tema sofrido e cansativo, e retratá-lo com tomadas fixas seria a morte do longa (ninguém suportaria aguentar o sofrimento do filme somado ao tédio da direção). Não só as imagens são tremidas, mas sempre nos levam aos rostos de cada personagem, com cortes rápidos ligando (por exemplo) pontos extremos, como se fosse de fato alguém olhando de uma pessoa para a outra. Além de situar o espectador dentro do filme, esta forma de filmar faz com que o longa fique mais dinâmico.

O que vai mais além do que a boa direção de Lars é o seu excelente roteiro. A progressão da história é feita com um cuidado enorme, pois mesmo após passarmos uma tensa introdução, apenas aos poucos conseguimos entender a razão de toda a suposta melancolia do longa. Somos apresentados à Justine (Kirsten Dunst, na melhor atuação de sua carreira, vencedora em Cannes e digna de uma indicação ao Oscar), que em um primeiro momento parece ser uma pessoa feliz. Ao caminho de seu casamento, ela se diverte com o seu noivo enquanto sua limosine tenta manobrar pelas apertadas ruelas até a mansão onde seria a festa. Ela parece satisfeita com sua vida, e feliz com seu noivo. Mas aos poucos nos são entregues, por atores de primeiríssima qualidade, situações constrangedoras pelas quais Justine tem de passar, e aos poucos entendemos que o real sentimento de Justine se compara ao que sentimos durante a introdução.

O mais interessante é que, como fomos introduzidos ao filme de uma forma tensa e angustiante, mesmo com a felicidade da protagonista, sempre ficamos com uma pulga atrás da orelha em relação à satisfação da mesma com a vida que leva. E um outro exemplo dessa suspeita ocorre durante a festa, quando Jack (Stellan Skarsgård), suposto chefe de Justine, faz um discurso “animado” para a noiva informando sobre a promoção que esta havia acabado de ganhar. Vejam bem, a situação é agradável para a noiva (e Lars faz questão de mostrá-la sorrindo com a notícia), mas a dúvida persiste para o espectador, apenas para, no decorrer do longa, essa suspeita fosse concretizada. É prazeroso ver um filme com um roteiro tão bem trabalhado. Um roteiro que vai moldando a percepção do espectador, e ao final entrega a este a confirmação de suas suspeitas.

Ao passar pela direção e pelo roteiro, não posso de deixar de mencionar a bela fotografia de Manuel Alberto Claro e a trilha sonora muito bem trabalhada do longa (que conta com a tocante e belíssima Tristan and Isolde, Prelude de Richard Wagner). A união de telas desbotadas com a tensão da orquestra criam o clima perfeito (já comentado na crítica) na introdução, e carregam o espectador no decorrer do filme com o mesmo cuidado que o roteiro. Quanto mais próximo o planeta ameaçador se encontra da Terra, mais densa a fotografia fica (mais azul, por ser a cor do planeta), assim como faz a trilha (devo ressaltar que a música de Wagner é perfeita para o longa, nota 10 pela escolha de Lars).

Minha única crítica negativa fica para o fim dado a John (personagem de Kiefer Sutherland, também conhecido como Jack Bauer). E por incrível que pareça reside basicamente na forma como roteiro de Lars (tão elogiado) encontrou para isto. Sem revelar nada da trama, em certo momento, a ação tomada por John simplesmente não condiz com o seu personagem. A solução encontrada por Lars pareceu muito forçada e desnecessária. O momento poderia ter sido repensado.

Termino minha crítica fazendo um comentário pessoal sobre a influência que o filme teve em mim: para quem é ateu como eu (e acredito fortemente que também é o caso de Lars von Trier, mesmo não tendo pesquisado nada sobre isso), o filme terá um efeito extra. Irei citar o momento exato abaixo, mas foi realmente angustiante deixar a sessão de Melancolia pensando nesse momento. De qualquer forma, cada um acredita no que quiser (ou não acredita), mas o que todos provavelmente vão concordar é que Melancolia é uma tensa, densa e linda experiência. Além de muito melancólica.



Parte 2 – Sutilezas (HÁ SPOILERS)

Ao iniciar a crítica, mencionei que não estaria “preparado” para escrever essa crítica pela riqueza de detalhes do filme de Lars. Pois não poderia escrever esse texto sem apontá-los (tanto as que eu entendi, como as que eu acho ter entendido como as que eu definitivamente não consegui entender):

1) Ao fim da festa de casamento, a garrafa com os feijões (o que deveria ter sido uma das “brincadeiras” da festa) é levada à atenção de Claire (Charlotte Gainsbourg). O organizador revela à Claire o número de feijões que havia na garrafa, e apenas ela está presente (além do antigo mordomo do Batman, mas tudo bem...). Ao final do longa, quando o Melancholia já está a caminho da Terra, Justine revela à Claire o número exato de feijões que estavam na garrafa, apenas para, após isso, afirmar: “Eu sei de coisas Claire, só existe vida na Terra, em mais nenhum outro lugar” (ok não lembro palavra por palavra, mas a lógica foi essa). Nessa hora eu arregalei os olhos e pensei (*¨#%¨& que o pariu). Agora a minha explicação: um dos pensamentos que podem perturbar os ateus, é a aceitação de que a vida termina aqui. Isso pode ser bastante complicado para alguns (ou para todos, não sei). Neste caso, Lars faz este pequeno jogo com feijões apenas para, no fim do longa, reforçar a afirmação de Justine (que só existiria vida na Terra, e em nenhum outro lugar). Desta forma, a última cena se torna muito mais desesperadora. Afinal, a vida no universo havia encontrado um fim. Perturbador isso.

2) Até o momento em que o noivo deixa Justine e vai embora, Lars constantemente foca nos seios da protagonista. Chega a ser doentio a quantidade de closes que são dados nos seis de Dunst, mas quando parei para pensar cheguei a uma conclusão: o doentio foco nos seios da personagem era a mesma obsessão doentia que o seu noivo tinha por fazer sexo com Justine, e o isto se confirma quando Justine deixa-o no quarto de cuecas (após ser “apalpada” pelo mesmo) e ele vai embora, deixando sua recém casada esposa. Desta forma, indiretamente, Lars mostra para o espectador que até o bondoso noivo tinha algo de obscuro. Pelo menos eu acredito que esta seja a razão.

3) Quando Justine e Claire saem para cavalgar, o cavalo de Claire se nega a atravessar a ponte. Já ao final do filme, quando Claire tenta desesperadamente encontrar ajuda, indo ao condado, seu carrinho de golfe fica sem bateria justamente ao tentar atravessar a ponte. Na minha percepção, estes dois momentos são retrato da vontade de Lars de não retirar o espectador da área da mansão. Por que isso? Para que o espectador nunca deixasse aquela realidade. Afinal, todos os momentos angustiantes e frustrantes haviam ocorrido ali, observar a destruição da Terra de qualquer outro lugar não teria o mesmo efeito. A mansão já estava sufocante para quem vivia aquela história, e teria de ser sufocante até o final.

4) O grande ‘x’ da questão “Melancolia”: O 19º buraco de golfe. Pensei que pudesse ser uma tentativa de Lars manter o espectador pensando no filme após o fim da sessão, rebuscando as dicas e momentos que pudessem explicar algo que na realidade não teria explicação. Mas não sei, acho que deve haver uma explicação sim. Mas não consegui descobri-la, infelizmente. Talvez se eu assistisse ao filme de novo?


Nota 5/5

Abaixo o trailer, legendado.